12 janeiro 2008

Os heróis e os falsos heróis

Lembrou ontem Je Maintiendrai a morte de um dos últimos heróis do século XX. Com Sir Edmund Hillary, agora levado pela Parca, já poucos heróis trágicos restarão. Que me lembre, Neil Alden Armstrong, com 77 anos, é um sobrevivente dessa raça de gigantes que passou de moda. Os tempos de glória - glória mercenária, glória para marketing - ou vão para os gladiadores dos tempos modernos (os futebolistas, os motoqueiros, os corredores da Fórmula 1) ou para os santos laicos das ditas grandes causas que se profissionalizaram na arte de condoer o coração dos telespectadores. Não os considero, porém, heróis, mas angariadores de pífias cruzadas em que o Zé Ninguém descarrega em outrém a responsabilidade de curar as feridas da consciência colectiva. Os Life Aid, os Médicos disto e daquilo, as ONG's, os profetas do descalabro ambiental, todos eles, são a negação dessa heroicidade que se fazia de rasgos individuais de ousadia extrema. Os horizontes fecharam-se para as grandes aventuras individuais, todo o planeta deixou de ser mistério: há estradas, telefones, internet e hotéis no Tibete e nas estepes da Ásia Central, paquetes de luxo nos mares do Ártico, turismo exótico no Pólo Sul, para ver baleias e focas, Massai de telemóvel em riste no Quénia, heliportos no coração da Amazónia, satélites e GP'S para navegadores solitários perseguidos pela CNN. O mundo perdeu a magia e o feitiço. O aventureiro que sente a tentação do risco africano já não encontra leões e outras feras, nem povos selvícolas nem antropófagos. Encontrará, sim, uma rede inextrincável de desastres causados pela mão do homem, caçadores de homens de Kalashnikov em riste, de óculos Ray-Ban e flamejantes relógios de ouro embutidos com diamantes. A geração dos gigantes e dos heróis passou à história. O mundo, sem eles, pertence ao homem-massa, ávido de glória remunerada e do reconhecimento no novo Gotha da plebe que é o Guinness. O risco pelo risco não eleva ninguém; antes rebaixa. Os "desportos radicais" são, neste particular, a maior abjecção do heroísmo, pois o herói não procura a morte, enfrenta-a e vence-a quando inopinadamente esta lhe surge no caminho. O mundo tornou-se, decididamente, numa enorme capoeira.


Gustav Mahler: Wir genießen die himmlischen Freunden

11 janeiro 2008

Prodígio da arte total: Tiefland

A ilusão do luxo por tuta e meia

Só no Oriente se pode viver assim. Sair do trabalho, andar trinta metros, entrar numa Sala -construção leve em madeira de teca - e pedir dez pratinhos de dim sum acompanhados por chá verde. Pedir o check bin (conta) e pagar 150 bath, ou seja, 3 Euros. E tudo isto sem ter de ser atendido por um empregado raivoso, respondão, agressivo e frustrado. Veio a conta com o brando sorriso e saí deixando uma pequena gorjeta, coisa por aqui desconhecida, pois disse-me a empregada que o seu trabalho é pago pelo patrão e não pelos clientes.

09 janeiro 2008

Odisseia de celulóide


A história da UFA, por Klaus Kreimeier, é daqueles livros que cobiçamos ao longo de anos mas nunca chegamos a comprar. Hoje, porém, mais de dez anos após o ter folheado pela primeira vez em Paris, não resisti ao "compra-me" e trouxe-o para casa. Edição em inglês, claro, mas apetecível a dois títulos: revista e acrescentada da edição princeps e fora do mercado há muito, por haver esgotado. A história de uma produtora que chegou a ter os maiores estúdios do mundo, que dominou o mercado europeu, determinou modas e gostos e se perdeu na voragem do cataclismo. Ali trabalharam os meus predilectos Zarah Leander, Willy Fritsch, Kristina Söderbaum e Marika Rökk em Musicais que bateram o pé às grandes produções da Broadway, à Ziegfeld, com a genial mão de compositores de enorme talento como Theo Mackeben e Herbert Windt. Dramas, dramalhões, comédias e histórias de amor, na linha do "telefone branco" que dominou a cinematografia continental nos anos 30 e 40, filmes históricos, filmes de animação e documentários conferem à UFA um lugar cimeiro na história da cultura popular do século XX, pelo que desconhecê-la é pecado.


Tiefland, de L. Riefensthal

Combustões barrado durante 22 horas

Coisa estranha. Denunciado por pia alma, o acesso a este blogue esteve fechado ao seu autor durante 22 horas. Motivo invocado: conteria matéria tida por contrária ao acordo. Depois, uma lacónica mensagem informando o presumível infractor que não, afinal estava tudo bem. Entretanto, pedimos desculpa pelo silêncio. Voltaremos à carga nas próximas horas.

08 janeiro 2008

Primeiras águas

Quem tem medo desta criança ?

As autoridades comunistas perderam a jogada. Com a lenta autonomização da sociedade civil chinesa face a um Estado que se quis total e totalitário, que pôs e dispôs da vida de milhões, que humilhou, matou e encarcerou em nome da quimera de um Homem Novo que era, afinal, um escravo sem consciência cujo valor ético mais expressivo se limitava à luta pela sobrevivência, os chineses estaõ a regressar às fonte primordiais da sua civilização. Quanto aos russos, assentaram pesado epitáfio sobre o jazigo do sovietismo e reintroduziram a capelania ortodoxa no Exército da Federação. O mundo contemporâneo perdeu, decididamente, o gosto pela neofilia e prefere o antigo ao incerto. Se a globalização é um facto inelutável, a ideologia mundialista, esculpida pelas toscas mãos do poder do dinheiro, constitui um perigo e incentivo a reacções imprevisíveis. O primeiro surto mundialista terminou em 1929 com a crise da Wall Street, mas trouxe consigo despostismos concentracionários argamassados pela frustração dos marginalizados da roda da riqueza e ressuscitou, com atavios pseudo-científicos, as mais deploráveis facetas da alma humana. As pessoas têm medo do incerto e os homens comuns querem certezas que lhes alimentem a segurança e equilíbrio psicológico. A velha Europa regressará, estou certo, à sua tradição e equilíbrio. Este passa, necessariamente, pela monarquia. Se os povos mais educados e civicamente mais maduros as mantiveram - argumento da excelência da monarquia sobre a república - chegou a hora dos portugueses regressarem às fontes históricas da sua liberdade e dignidade que a república não pode, como se vê, restituir.


Ich bin der Welt abhanden gekommen ( Mahler)

06 janeiro 2008

Luiz Pacheco, o grande


Só a custo, quase forçado pela minha querida Adília Lopes, me iniciei há cerca de quinze anos no abjeccionismo das leituras de Pacheco. Diz-se que os tubarões, depois de provada a carne humana, não querem outra coisa e dei comigo a devorar Pacheco: o Pacheco polemista, um raio da morte implacável e absolutamente ingrato; o Pacheco provocador, tão obsceno e tão escancarado na confissão das suas loucuras lúcidas e pulsões que quase emula os grandes santos pecadores; o Pacheco epistológrafo e o Pacheco crítico literário. Pacheco era um grande escritor. Raramente, numa só pessoa, convivem tantos talentos. Mais. Raramente um escritor é a mesma pessoa no acto da escrita e na mesa do café. Pacheco excedeu tudo o que a auto-censura mais branda pode fazer pela "reputação" e "bom nome" de uma figura pública. Sofreu como nenhum homem e gozou como um preto o escândalo que foi semeando em papelinhos, garatujas e sebentas escritas, riscadas, reescritas e perdidas num canto qualquer, ou trocadas por "20 paus" para angariar os meios para a carcaça, a cerveja e a bica. Pacheco foi um rei e cuspiu nas convenções literárias, nas academias, na pose do intelectual. Foi, sempre, um miúdo de 13 anos, mas um miúdo de génio que palmilhou todos os sendeiros do inferno. Trocaria dez minutos de um naco de Pacheco pelas obras completas dos nossos "escritores" da praça. No fim, até uma tença do Estado recebeu. Quando voltar a Lisboa, se me disserem onde está, lá irei depositar um ramo de flores na campa do rei. Coisas destas só raramente acontecem. Pacheco fintou todos os cálculos de um país que ama o cinzento, que respira "seriedade" e que venera o "parece bem". Viva Pacheco, pois !


Ambrose and his Orchestra: Ultra Modern Swing