14 dezembro 2008

A nova elite urbana: "os políticos não deviam fazer política"




Não são nem ricos nem pobres e fazem parte de uma classe média urbana que vai crescendo em respeito e obra. Um, arquitecto com mestrado no Reino Unido, casado com uma anglo-japonesa instalada em Banguecoque e pedopedagoga num colégio britânico. O outro, fotógrafo e cinéfilo como poucos que conheci em Portugal, casado com uma rapariga inteligentíssima que se exprime com tal desenvoltura em inglês que, pela aparência, me parecia ser uma lúuk kreung (euro-asiática). Entretanto, juntou-se-nos um outro amigo, director de produção de uma empresa de publicidade. Estivemos uma tarde inteira a falar sobre coisas interessantes - o letal impacto da urbanização ocidental na Tailândia, as novas correntes na estética thai, os santuários ecológicos no planalto do Issan, a devoção budista perante o assalto das seitas de lunáticos americanos - e quando alguém aflorou a política, cortaram cerce, como quem diz "não se metam na nossa vida interna". Estes amigos, no início da casa dos trinta, são informados, abertos e dialogantes, têm uma visão do mundo que lhes permite comparar e avaliar, mas continuam, como quase todos os tailandeses, profudamente convictos da sua especificidade cultural. Fiquei desarmado quando uma delas, levantando o dedo em tom professoral, afirmou ser a política uma coisa "máy nasonjáy" (uma coisa desinteressante) e que a vida política só interessa a gente que quer fazer dinheiro fácil. O marido aduziu: "os políticos não deviam fazer política, deviam governar". Quase me ocorreu a lapidar frase de Salazar: "os meus ministros não fazem política, governam". Mas, logo, deixou-se de parte a situação política e partimos ao assalto da cesta de frutos que trouxeram para a sobremesa. À partida, o fotógrafo perguntou onde estava o retrato de Somdet Phraja Yiu Hua (o Rei), pois casa sem o retrato do Rei é tão impensável como uma casa sem cozinha, sem quartos e sem janelas. Alívio dos alívios. Esta gente ainda não foi contaminada e vai entrar em cena, como o fizeram os avós e bisavós, fiel às mesmas certezas que fizeram a unidade do velho Sião invulnerável aos "famigerados ventos da história". O fotógrafo guardou para os derradeiros segundos a mais surpreendente revelação: é filho de camponeses e vai partir para a sua província para ajudar nos árduos trabalhos da colheita de arroz na pequena propriedade da família. Os thais, na maioria, continuam um povo camponês. É esta dualidade antigo/novo, abertura/inflexibilidade, curiosidade cosmopolita e orgulho nacional que me encanta. No Antigo Sião, camponeses e militares eram sinónimos. Hoje, perante estes amigos, julguei fazer uma viagem no tempo, por sinal o tempo que não muda, nem a tiro, chapeladas eleitorais ou todos os cheques do mundo.


Púak Tahaan (gente de guerra)

1 comentário:

Francisco disse...

Eu queria esse tapete!!!!!!!!!!!!
(tenho 1 rigorosamente igual!
- não haverá maneira de materializar este par do lado de cá? ):):)