10 dezembro 2008

Não tenho medo, tenho nojo


Pergunta-me um amigo de longa data se tenho medo da plutocracia. Respondo-lhe que não, que a plutocracia não mete medo a ninguém. É um arranjo cuja preocupação se centra em monopolizar o poder político, confundindo-o com aqueles que detêm o capital, logo um insulto à democracia, à representação, à imparcialidade da lei e à propriedade de utilidade social. Acresce que os plutocratas, ao invés dos capitalistas, não são animados por qualquer outro valor na acção política que não seja condicionar, calar a diferença, ultrajar os que não integram o clube. Capitalistas houve que fizeram mais pela cultura, pela ciência e pela felicidade dos outros que muitos religiosos e moralistas. Vide os exemplos dos Smithson, Thyssen, Aga Kahn e Gulbenkian e atentemos da categoria dos mecenas portugueses, das doações que deixaram por herança (Champalimaud, Ricardo Espírito Santo). Comparemo-los com os merceeiros do presente e a diferença é gritante. Uns - os capitalistas mecenas - eram homens de cultura, espalharam o bem, ajudaram artistas, concederam bolsas a milhões de estudantes, abriram museus, estimularam a inventiva. Foram, sem tirar, democratizadores. Os outros - os tais dos bancos que infestam, prédio sim, prédio não, as nossas cidades - não deixarão nada.
O capitalista deixa colecções de arte, bibliotecas, parques, laboratórios, hospitais. O plutocrata não deixa nada, pois o seu horizonte confunde-se com os gostos canalhas. O plutocrata não se distingue, aliás, da canalha, com a agravante de ser canalha com poder. A plutocracia não mete medo: mete nojo.

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