21 dezembro 2008

Mugabe explicado às crianças / มูคะเบะอธิบายให้เด็กเล็ก


Chegou a altura de José Jorge Letria, "escritor, jornalista e cidadão comprometido com as grandes questões do seu tempo", fazer espalhar pelas bibliotecas públicas mais uns milhares de brochurazinhas da série "Explicar às Crianças o Inexplicável". Questão delicada, sem dúvida, pois explicar aos tenros cidadãos do amanhã a história de horror do oligofrénico que se apossou da Rodésia - outrora um oásis de prosperidade, hoje o quarto país mais pobre do mundo - é algo que até à prodigiosa capacidade de brincar das crianças surge como inverosímel. Mugabe foi inventado pelos soviéticos e aclamado pelo Ocidente como um homem de excepcionais qualidades. Sem tirar nem por, nada o separava dos machéis e outra pigmeiada que a boa consciência fez crismar como "nacionalistas" [de coisa alguma] e "freedom fighters", expressão de cintura larga onde cabiam os Ches, os Bin Ladens, os Ortegas e os Pol Pots.


É sabido que o Ocidente tudo fez para impedir a solução compromissória representada pelo bispo Muzorewa, que venceu as eleições gerais de 1979 - eleições justas, democráticas - teimando em não lhes reconhecer legitimidade, pois a legitimidade de armas na mão da ZANU era, como o foi em Moçambique com a FRELIMO, a única condição exigida pela boa consciência dos areópagos. Mutadis mutandis, como se para o Iraque só se aceitasse um governo onde, à cabeça, estivesse a Al Quaeda, ou no Afeganistão os talibãs.



Depois, foi o que se sabe: o oligofrénico destruiu os seus compagnos de route - só não matou Joshua Nkomo, pois providencial cancro na próstata o retirou do número dos vivos - depois mandou retirar por decreto os lugares parlamentares reservados à minoria branca, destruiu a economia reeditando a deskulakização e as fomes bíblicas de 1932 na URSS, mandou demolir todas as casas pertencentes a membros de tribos minoritárias que se haviam fixado em torno da capital, confiscou todos os poderes, baniu a oposição e empurrou para o exílio mais de 30% da população. Perante o desastre, o soba louco inventou cabalas e conspirações universais para desculpar as políticas ubuescas: a conspiração da rainha Isabel, a conspiração do sionismo, a conspiração dos "pornógrafos britânicos" e outras espantosas maquinações que só uma transbordante veia ficcionista à Swift se atreveria passar ao papel.


Magube é o retrato da África que se quis negra, pura e absolutamente negra, do racismo que não se queria ver ao espelho, da regressão até aos limites da luta pela sobrevivência. Mugabe não é excepção: é a regra de ouro, a mais perfeita decantação do pesadelo em que se transformou o continente. A culpa - se a definição importada do direito tem alguma possibilidade de vingar num continente sem lei - não é de Mugabe, mas de todos os estúpidos inteligentes que o colocaram onde está e de onde sairá morto pois, como ontem afirmou, "o Zimbabwe é meu e ninguém mo tira".



Rodésia (1967-1980)

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

A ONU, sempre tão apressada em provocar sarilhos no Kosovo ou na Geórgia, bem podia agora declarar guerra ao senhor Mugabe e utilizar a África do Sul como cabeça da operação.

António Luís disse...

Muito bem!
O único senão são os pesadelos que as crianças podem ter ao saber desta "embaladora" história de encantar!

Cumprimentos.