06 dezembro 2008

Monarquia, patriotismo e democracia


Recebi um longo, interessante e provocatório email de alguém que se diz comunista. Sabendo o que penso da trágica monstruosidade do comunismo, que coloco na sentina dos colóides da humanidade, não pude deixar de comungar com o signatário quando este enumera o tremedal de erros em que se afunda o tempo presente. Diz o meu amigo que o "grande capital anónimo internacional é despido de qualquer piedade pela sorte daqueles que nada têm" e que "a ordem global deste capitalismo selvagem é convite para uma nova tomada de consciência revolucionária que levará, cedo ou tarde, a uma resposta global". O meu amigo tem plena razão. O assalto dos merceeiros e desmiolados a tudo o que desprezam ou desconhecem, a substituição das velhas elites por gentinha insignificante vai provocar, cedo ou tarde, uma vaga de violência que permitirá a reedição do erro que foi o comunismo; ou pior, talvez de um neo-comunismo quase sem Marx, mas com muito Hitler à mistura.


Pergunta-me o ASC se haverá alternativa. Creio, sinceramente, que essa alternativa não pode deixar de se construir com os materiais da experiência histórica recente, mais aqueles, muito antigos, que fizeram e consolidaram tudo aquilo por que vale a pena viver e morrer. A reacção à estupidez que se julga inteligente, às catatuas e demais cabeleiras sem cérebro deve começar por se lhes dizer que acreditamos no homem, na sua liberdade e naqueles direitos invioláveis que estão em todos os textos fundadores das politéias e das religiões: o carácter único de cada homem, a busca da perfeição, a justiça e a ideia de que há um bem-comum que obriga à solidariedade que a todos deve unir na partilha de sacrifícios e alegrias, a participação de todos na vida colectiva, a preservação do mínimo ético que é a comunidade politicamente organizada em Estado.


É por isso que sou politicamente monárquico, patriota e democrático, pois não há sentimento colectivo no efémero, sendo que a monarquia - que não é só uma ideia, mas o poder personalizado que emblematiza a ininterrupta sucessão de gerações - a todos e cada um vincula num pacto que transcende as fronteiras da vida individual e as diferenças de propriedade e mérito. O Estado não é unidimensional, como o não são os homens. Ora, os desmiolados reduzem a vida colectiva e individual à produção, troca e consumo de bens, pensando estultamente que a felicidade se reduz às dimensões de um descapotável, à largura da cintura e ao conta-quilómetros de cartões frequent flyer. As pessoas têm o direito à felicidade individual e ao prazer, como têm obrigações que devem ultrapassar a esfera do seu egoísmo. A democracia sem o respeito pela unicidade cultural que permitiu o nascimento da comunidade politicamente organizada em Estado é uma abominação: é estatística que viola e mata a diversidade, que seca a cultura, opina e se ilude ao ritmo dos fenómenos gástricos; o atrevimento de querer ser tempo sem alicerces, de querer dar exemplo sem ideias e sentimentos.


Desta Tailândia que cada vez mais respeito, a luta entre os desmiolados e a monarquia parece exprimir esse choque global entre cultura e acidente: de um lado aquilo que é de todos e que nos faz todos e cada um; do outro lado, os intestinos, os estômagos e as cabeleiras à procura do sucesso, da felicidade e dos "direitos". Só que os direitos, em tal sociedade, não transcenderiam a conta bancária e a ânsia de ter, comprar e gastar. Há que escolher. Parece-me não haver aqui qualquer espaço para angustias dilemáticas.

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