11 dezembro 2008

Leitura de Natal: o grande Rei leproso




Príncipe contemporâneo de D. Afonso Henriques sobre cuja infância e juventude pouco ou nada se sabe. Obscuras primícias, com perda de privilégios, enxovalhos e destituição pela mão de um rei usurpador remeteram Jayavarman para os confins de um império khmer decaído e vulnerável. Ali esteve anos estudando e discutindo religião à sombra de um templo bramânico até que, subitamente, por volta dos quarenta anos de idade, a pálida estrela deste desterrado mudou de radiância. Uma invasão brutal e destruidora, o saque e colapso da capital khmer fizeram deste proscrito o salvador do seu povo. O monge fez-se soldado, o estudioso deixou de parte o recolhimento e comandou os exércitos camponeses na reconquista da liberdade. Depois da vitória, corou-se rei e transformou-se no mais ardoroso pregador do budismo, declarando-o religião do Estado. Na tradição khmer dos reis divinos, foi tido como o mais virtuoso dos mortais, o mais rigoroso intérprete da palavra do Iluminado, logo, como Assok o fora para a Índia, um Buda-Rei. Reinou quase meio século e dele ficou a nagara (capital) Angkor Thom que conhecemos. Do "culto da personalidade" que rodeou este génio militar e político ficaram vestígios ainda hoje profundamente enraízados na teoria do poder real que o budismo therevada transporta. O Rei da Tailândia é o último destes monarcas, posto que o Rei do Camboja, reposto no trono após o pesadelo totalitário comunista de Pol Pot, perdeu grande parte do halo sobrenatural que o investia como intermediário entre o cosmos e o mundo dos homens.

Jayavarman foi um rei patriarca e paternal. Doente minado pela insidiosa lepra que lhe corrompeu o corpo e reforçou o espírito, espalhou o bem e a misericórdia. Mandou construir mais de cem hospitais, leprosarias, casas de acolhimento para orfãos e deficientes, rasgou estradas e assegurou protecção a peregrinos, dando-lhes comida, cama e lume. Ao morrer, com noventa anos, mereceria sem dúvida mais santidade que S. Luís de França. Rezam as crónicas reais khmeres que o Rei trabalhou até ao último dia de vida, padecendo de dores lancinantes. Ao morrer, o seu povo chorou-o durante décadas, na lembrança do grande monarca que os retirara das trevas.

É desta aventura espiritual de um homem diminuído mas gigante que nos relata a The King's last Song. É raro um revolucionário religioso (ou político) possuir tacto político. Amenófis IV condenou o Egipto à miséria, como Lutero lançou a Europa na mais perversa e longa das guerras que levaram ao colapso da Respublica Christiana. Basta um homem bom para que o mundo se salve da dor, parece ser o epitáfio do grande Rei. É destes homens visionários que o nosso tempo padece. Infelizmente, os homens escolhem preferencialmente os bandidos. É a nossa condenação.



Ók sip pii (60 anos), hino em homenagem ao Chao Chiwit (Senhor da Vida) Rama IX, o Grande, por ocasião do 60º aniversário da ascensão ao trono. Compreendo hoje, sem desconstruções positivistas, que no Rei da Tailândia vive o fogo e exemplo de Jayavarman. A Iluminação bate os iluminismos aos pontos !

5 comentários:

Gaspar disse...

Parabéns, os teus leitores estavam à espera desta caixa.

Nuno Castelo-Branco disse...

Ora cá está a hipótese de comentar os melhores posts da bolgosfera.

Nuno Castelo-Branco disse...

... digo, blogosfera

Luis disse...

Já encomendei 2 cópias, sendo uma para oferecer, do King's last Song. Que mais pode recomendar? Estou interessado em livros (sobre a Tailândia ou outros) que não estejam influenciados pelo lixo ocidental. Que tal disponibilizar no blog uma lista dos livros que recomenda?

Samuel de Paiva Pires disse...

Khun Miguel faço minhas as palavras do Gaspar, julgo que a possibilidade de comentar a melhor pena escrita portuguesa, como muitos referem, será um incentivo para todos os leitores! Um abraço