01 dezembro 2008

Expressões que detesto (2): "um homem esclarecido"


Passei anos a ouvir a expressão. À míngua de qualidades evidentes e mensuráveis, sem predicados nem substância, apõe-se a uma criatura a coroa do "esclarecimento", halo de luz por certo inacessível à minha grosseira acuidade visual, mas que os outros teimam em ver ou fazer crer que vêem. Homens esclarecidos perpassam pela minha memória aos centos. Dos tempos do manicómio em que se transformou Portugal, ficou o eco de um Melo Antunes "esclarecido", de um "Costa Gomes esclarecido" e, até, de um Cunhal, figura duríssima, péssimo orador, repetitivo e fanático, besuntado com as mesuras e méis daqueles que por certo mandaria enterrar vivos em campos de reeducação, caso tivesse tido oportunidade para cravar garras no lombo deste país. O "esclarecimento" tem história velha. Vem dos tempos dos salões em que os éclairés brincavam à inteligência com cheques de erudição provocatrice, tocando ao de leve todas e nenhumas questões, do trajar dos persas à Bíblia, das maquinetas pendulares à revolução dos planetas, da circulação do sangue ao segredo da origem química dos flatos. O "esclarecimento", afinal, é como aqueles "mistérios" da religião: é tão denso e obscuro, tão inacessível às faculdades cognitivas dos grosseiros mortais que existe, pronto, sem discussões. Trocado por miúdos quer dizer: o esclarecido tem de ser, obrigatoriamente, um ex-comunista e melhor será se tivesse calcorreado aquele terreno movediço dos compagnons de route, nem carne nem peixe, carne se as coisas caíssem para o lado dos Amanhãs Ridentes, peixe se as coisas tombassem para os lados da "democracia burguesa" (outro mistério por decifrar, tão obscuro como aquela pateta expressão do "comunista puro". O "homem esclarecido" é, assim, um outro nome para o de oportunista, catavento, proteu, habilidoso, arranjista, lambe-botas. Fica bem. Dá chique e dá proveito ! Pode, também, dizer que é um "homem do seu tempo" - como se alguém pudesse ser de um tempo diferente do seu - e como tal fazer pública fé daquelas coisas que se repetem até à náusea sem jamais saber o que são. Por último, pode ser - esta é a minha interpretação - um outro nome para o de estúpido inteligente. Lembram-se do programa dos livros do Carlos Pinto Coelho ? Pois, ali está na sua grandiosa exemplaridade, o "esclarecimento".
Receita: se quer ser um homem/mulher esclarecido(a), cite, cite muitos autores, fale baixo mas como quem está a dar uma aula, misturando o "sério" com palavrotas de café ("giro", "tipo porreiro", "estás a ver ?"), locuções interjectivas e uma boa dúzia de palavras para que outros "esclarecidos" percebam estarem a lidar com um igual: "cumplicidade", "intelectual", "cultura", "saber" são sempre benvindos. Se quiser brincar ao velho intelectual, não deixe de dizer que não é nem nunca foi marxista (calha mesmo bem), mas que aceita alguns postulados do velho Karl, sobretudo se passarem na categoria de "metodologia". Pode inclinar a cabeça, assentar o queixo na mão, coçar a nuca como quem espreme o cérebro e semear a conversa de ahhhh, hmmmm, hôôô. Para elevar o ego do seu interlocutor, decerto também esclarecido, vá abanando a cabeça ao mesmo tempo que exibe um sorriso embevecido e semicerra os olhos para lhe demonstrar que o que estão a tratar é coisa verdadeiramente elevada.



Um "salão"

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