02 dezembro 2008

Epílogo



Terra dos Homens Livres: Estou satisfeito por ver que a velha e antiga liberdade que fez do Sião a Terra dos Homens Livres sobrevive ao tempo conturbado em que o dinheiro e os negócios são lei e em que os que reclamam uma democracia suja por interesses inconfessáveis se vêem impossibilitados de dar largas ao costumeiro processo de atirar o povo miúdo contra a instituição que é salvaguarda da unidade nacional. Vitória plena para a Tailândia na unidade entre o povo e o Rei é, em suma, a lição desta crise. Os Mercedes, as roletas, as contas bancárias e a pedanteria sem nível pedirão desforra, mas terão por ora de se contentar com conspiratas.
Não houve Bastilha: SS MM os Reis presidiram hoje ao desfile militar que inicia quatro dias de festejos em honra do Rei, que celebra aniversário natalício no próximo dia 5. No aeroporto internacional de Banguecoque ouve uma explosão de lágrimas, abraços e hurras. Se isto não é o povo, onde está o povo ? Como disse no início da crise, aqui não haveria Bastilha alguma. Agora acrescento: aqui não vai haver nem Nepal nem a tomada do poder pela Mafia de Sampeng. A estratégia dos adeptos do governo era a habitual: reclamar lealdade à coroa, mas insinuando que reformas necessárias teriam de ser feitas em ordem a "modernizar" e adaptar a instituição real aos "tempos presentes"; i.e, transformar o Rei em figura decorativa. Depois, quando este estivesse praticamente isolado e sem capacidade de intervenção, colocar a possibilidade de auscultar o "povo" sobre a continuidade da chefia de Estado hereditária. Referendo ganho ! Logo, o candidato a Senhor Presidente - um homem de negócios, claro - faria uma campanha afirmando ter chegado o tempo dos homens comuns terem tantos "direitos" como um homem nascido numa família "privilegiada", atiçar a inveja e fazer crer ao pobre vendedor de rua que o seu filho poderia, um dia, vir a ser "Senhor Presidente". É a velha conversa de meretriz que conheço, a converseta da inveja daqueles que não podem ser reis, logo são inimigos da monarquia. Falhou !
Eleições justas: Dirão os adeptos da democracia, que eu também defendo, que o governo em colapso saíra de eleições livres e democráticas. Livres, não sei se foram, democráticas não o foram concerteza, sabendo das chapeladas e da vaga de compra-votos que cobriu as regiões mais remotas do país, as ofertas de motorizadas, computadores e carros com que Thaksim inundou os caciques de 5000 aldeias do nordeste. Depois, que autoridade temos nós, ocidentais, para contestar a vida política de países estranhos à tradição democrática ocidental se Bush II venceu a primeira eleição após mil e uma recontagens e da intervenção do cartel petrolífero, e que na Europa da União se fazem referendos após referendos para coagir os países rebeldes a aceitar as imposições de Bruxelas ? Os erros e entorses anti-democráticas só as cometem os outros. Nós, arrogantes, somos sempre puras vestais !


Kelly Newton: The King of Siam

Sem comentários: