02 dezembro 2008

[Continuação do] epílogo

A ordem voltou à Tailândia


O Nuno Caldeira da Silva tem feito aquilo a nossa imprensa não está preparada para fazer. Aqui debitou todos os dias, sem desfalecimentos, fosse qual fosse o auditório, a conta corrente dos noticiários, facultando aos portugueses informação preciosa, oferecendo gratuitamente às Necessidades o seu saber colhido diariamente da leitura, das muitas conversas e reflexão que foi possível fazer no meio do vórtice em que mergulhou a Tailândia ao longo de meses. Os seus superiores hierárquicos só têm que lhe agradecer, pois não é todos os dias que alguém se atira a tal empreitada. Não falhou em nada, pois não fez prognósticos nem fez política. Os seus pontos de vista, divergentes dos meus, são-me de grande utilidade, pois aqui cheguei só para estudar o passado e o Nuno foi-me dando, de bandeja, aquilo que não lia nos jornais. Está de parabéns. Quanto a mim, o processo "revolucionário" acabou em bem: sem guerra civil, sem muitos mortos e sem a divisão entre tailandeses. Os perdedores terão compreendido hoje quanta falta faz um Rei, o apaziguador, o elo de unidade e a porta que a todos acolhe. Os vitoriosos não se poderão exceder, pois o Rei tal não permitirá.


No rescaldo desta maratona julgo termos contribuído - eu, muito opinativo, sentimentalmente comprometido com a causa real, o Nuno, severo na apreciação de processos políticos muito distintos dos ocidentais - para esclarecer os portugueses [e brasileiros, pois muito os temos em consideração] sobre a fascinante, exótica e imprevisível tecitura anímica deste povo e desta terra que ambos amamos. Amanhã volta a paz. Espero que as feridas que originaram a luta civil tenham sido compreendidas por quem venceu a contenda. Só espero que agora os pobres, os humildes e aqueles que pouco ou nada têm e que a Thaksim se agarraram, por ele foram manipulados e usados, sejam, finalmente, contemplados com políticas sociais de justiça. Se tal não acontecer, dentro de cinco, sete, dez anos teremos de novo a repetição deste triste seriado. A sociedade civil tailandesa está a acordar, a cidadania é um dado absolutamente novo. As pessoas passaram a ter opinião, a contestar, criticar e defender os seus pontos de vista publicamente. Acabou o tempo do clubismo político, das cliques e das redes clientelares. Quem agora venceu sabe-o. Quem saiu derrotado sabe que qualquer deslize dos vencedores de hoje pode ressuscitar de novo aquilo que hoje foi a enterrar. O tempo muda. O passado é testemunhal, mas se não for compreendido apenas enquanto fonte de informação e inspiração e não como guia para a acção política, pode reduzir um país à contemplação embevecida do passado, fechar-lhe os olhos e lançá-lo no autismo.
Os tailandeses habituaram-se a ter como Rei um homem excepcional, um dos grandes homens de Estado do século XX. Contudo, a defesa da superioridade da monarquia não requer um Príncipe Perfeito para o exercício das funções reais, mas apenas o maior e mais esforçado servidor do Estado, do povo e da nação. Quando o novo rei vier, ninguém lhe discutirá o título, o fardo e as provações. Terá sempre ao seu lado aqueles que nele vêem a continuidade. Aqui está a ética monárquica: nunca discutir o Rei e servi-lo sempre, assim servindo a comunidade. A monarquia é, como dizia o clássico, um referendo todos os dias, referendo em que têm voz os vivos e os mortos, o passado e o presente.


Phrabat Somdet Phra Poraminthara Maha Bhumibol Adulyadej

Sem comentários: