13 dezembro 2008

Combustões visitou os "vermelhos": o nascimento da esquerda tailandesa



Os "vermelhos" de Thaksin realizaram hoje um grande comício no Estádio Nacional de Banguecoque. O estádio data dos anos 60, não se comparando em dimensão e conforto aos nossos estádios de futebol. Não posso deixar de registar a afluência de umas 20.000 pessoas à concentração que terminou com uma alocução do líder exilado. Por lá estive entre as duas e as quatro da tarde, ou seja, entre o início do acto multitudinário e as primeiras intervenções de oradores da "Frente Democrática Contra a Ditadura". Metade do estádio encontrava-se vazio ou parcialmente vazio. As bancadas, resguardadas do calor sufocante pela pala de betão, eram disputadas por milhares de pessoas. Para a Tailândia, tal ajuntamento pode ser considerado um sucesso de mobilização, pois na tradição política local os comícios que conhecemos são praticamente desconhecidos, reunindo em média um milhar de participantes.



Verifiquei, com espanto, a completa ausência da figura do Rei. Nas centenas de bancas de propaganda pontificavam fotos dos líderes do movimento e muitas referências a Thaksin, entre posteres, autocolantes, bandeiras, calendários, pulseiras vermelhas, faixas para a cabeça e postais. As obras à venda - antologias de escritos de Thaksin, brochuras anti-PAD e um sortido de obras apologéticas do defunto partido de Thaksin - motivavam pouco interesse dos passeantes. A juventude vermelha parecia mais interessada nas bandeiras vermelhas com a efígie do Che.


A meio da tarde, a composição do público parecia homogénea no que ao tipo social respeita: muito proletariado urbano e gente muito pobre eventualmente vinda em excursão dos confins da Tailândia rural e dos bastiões do thaksinismo no nordeste. Aquela gente que ali estava, humilde e sorridente, não me inspirou qualquer temor. Exibiam, como é marca tailandesa, aquele sorriso infantil e desarmante que tudo diz e tudo esconde, um enigma de cambiantes que desafia qualquer ensaio sobre a mais simpática e pacífica expressão dos sentimentos humanos. Perdoe-se-me a analogia, mas tudo aquilo lembrou-me as concentrações do PC, da sua base de apoio suburbana e rural e do poder de enquadramento que entre nós os leninistas mantêm desde os anos 70. Sociologicamente, estes milhares de tailandeses parece serem mais reaccionários que os manifestantes do PAD que por duas vezes visitei. É gente que se viu ultrapassada pelo processo de generalizado enriquecimento que o país experimentou ao longo das últimas décadas e que se agarra com esperança messiânica a um "grande homem" que os resgatará da marginalidade social e política.



O comício iniciou-se com um potpourri de canções de luta. Os cânticos foram entoados de punhos cerrados, mas logo, traço tipicamente siamês, a expressão corporal deu largas aos maneios próprios das danças regionais e as famílias ali sentadas em esteiras logo se deixaram entreter por outra ocupação que enche os thais de alegria: descascar mangas e comê-las ainda verdes demolhadas numa solução de açúcar e sal.



Os vermelhos têm um ídolo: Thaksin. Porém, questão merecedora de reflexão, dir-se-ia encontrarem-se nos antípodas do homem que veneram: ele muito rico, distante e autoritário; eles muito pobres, chãos e doces. Era como se em Portugal, Belmiro de Azevedo, Américo Amorim ou os donos do BCP fossem idolatrados pela outra-margem do Tejo, pelo Casal Ventoso ou pela Quinta dos Mochos ! A atracção pelo grande líder é tão velha como a história do país. O homem providencial vem do topo e reune os seus clientes na conjugação da estrela do bem aventurado - um homem muito rico é um homem de mérito, pois o dinheiro só escolhe os eleitos - e de condutor de homens que padecem de grande infortúnio. O vermelho - aqueles que vi e com quem estive - envolve-se na actividade política sem outra esperança que a de poder, um dia, ser reconhecido como cidadão de pleno direito. O líder falou via televisão, algures do estrangeiro. Esta presença distante, quase icónica, aumenta-lhe a dimensão humana, a distância, a intocabilidade. É o sortilégio da tecnologia associado a tudo o que para um povo rural significa o homem que está lá em cima, lhes diz o que devem fazer e não os ouve.



Entre a multidão destacavam-se muitos tailandeses de etnia chinesa, daquela gente da pequena burguesia urbana com pequenos negócios, empreendedora ou com empregos no sector terciário que se foi consolidando ao longo do século XX. Senhoras de cabelo tratado, unhas pintadas e camisas de melhor corte, homens exibindo calças de fazenda e relógios de pulso refulgentes. Estão com Thaksin por identificação com a origem étnica do líder, mas também porque reclamam acesso à vida pública até hoje centrada nas elites que dirigem o país desde o reinado de Rama VIII: as Forças Armadas, o funcionalismo público e a alta burguesia. É este, quiçá, o mais forte arrimo de Thaksin. A Tailândia está a experimentar, tacteando, a entrada em cena dos pequenos homens suburbanos e rurais numa vida pública ainda muito "oitocentista". O PAD e os Vermelhos exprimem a entrada em cena de massas reivindicativas. A minha previsão - no tempo longo - é que se Thaksin está politicamente agonizante, a gente que o secunda, mesmo que o dinheiro do capitalista desapareça, ganhou consciência da sua expressão numérica e procurará quem de futuro a possa comandar. A esquerda tailandesa, refém de um multimilionário, parece estar a nascer neste interim entre o velho sistema das capelinhas de políticos profissionais e o sistema representativo que acabará por se afirmar. Quanto ao PAD, se for consequente, constituir-se-á em direita partidária. Os dois extremos do continente político emergente estão criados.

Ao sair do estádio, deparei com um grande retrato do Rei, ali colocado pelo ministério que tutela os desportos. A monarquia está firme, mas para os vermelhos é "amarela". O futuro primeiro-ministro terá dado o assentimento a uma política de "correcção de assimetrias", visando retirar das mãos de Thaksin o proletariado. Este país precisa, obviamente, de grande investimento em políticas sociais. O descontentamento só é debelado com justiça social. O Rei conseguiu vencer a tentação do comunismo nos anos 60 e 70 mercê de grande atenção às suas causas sociais. Chegou o momento de refazer o pacto e restaurar a esperança dos pobres tailandeses no Estado e na elite que os governa. Tenho pelo povo humilde da Tailândia grande afecto, mais que pela burguesia, sobretudo aquela que se estragou no macaquear dos EUA. Desta gente que trabalha dez, doze, quinze horas por dia, sempre recebi sorrisos e gestos de tocante graça. Por eles, pela Tailândia e pelo futuro desta raça nobre, espero que cresçam em dignidade e se libertem do opressivo sufoco de candidatos a ditadores e exploradores.

Ruam Thai, Ruam Jáy = unir os thais, unir os corações

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Veremos é se a cegueira pela evidência não empurrará essa boa gente para os caminhos que hoje o Nepal trilha. era só o que mais faltava.

Combustões disse...

Nuno:
Esta é a consequência de vinte e tal anos de rédea-solta de barrigudos e sanguessugas que vivem em duplex e penthouse nas Satorn's. Não é culpa da "aristocracia" nem do Rei. O Sr. Thaksin é um agente parasitário pois, com ele no poder, esta gente pobre e sofredora seria esvaída até ao tutano. Em suma, o velho estratagema dos ditadores: virar o povo miúdo contra o trono e, depois, explorá-lo sem freio.

Nuno Castelo-Branco disse...

Sabemos como funciona e o pior é que abrem o caminho a todo o tipo de tarados, como vimos na China, Rússia, Vietname, Coreia, etc.