08 dezembro 2008

Capitalismo sim, amálgama não


Os dias da Tailândia democrática de Thaksin


O nosso amigo Insurgente publica hoje, assinado pelo caríssimo Helder Ferreira, uma simpática contestação a texto aqui ontem publicado. Li-o e reli-o, não fosse a minha diminuta acuidade intelectiva forçar-me a injusta tréplica. Estou absolutamente de acordo com tudo o que diz o Helder, pois também sou adepto do capitalismo, da economia de mercado, da livre iniciativa e todas as decorrente sociais e políticas dessa opção: a democracia e os direitos extensos de cidadania, a defesa da propriedade, a não intervenção do Estado em tudo o que toca a esfera do privado. Assim entendido, o capitalismo é alavanca de libertação, agente de promoção dos homens e salvaguarda daquela sã desigualdade que permite a rotação das elites que criam, têm iniciativa, geram emprego e riqueza, reforçam a sociedade, multiplicam a felicidade.



O que, porém, está em causa - é esta a fractura que nos pode separar - é a destruição da propriedade mercê do triunfo dos jogadores, o eclipse da economia em favor da especulação financeira, a derrogação das vantagens sociais do capitalismo pela errância do capital, pelo desinvestimento e pelas relocalizações. Esse capitalismo está a matar o tecido económico europeu, mutilou profundamente os EUA e transferiu tecnologia para zonas do planeta em que a opção pelo capitalismo é meramente instrumental, sem qualquer vantagem individual e social para quem recebe as transferências. Sei distinguir capitalismo de plutocracia, que é o poder dos homens do dinheiro, impunes, agressivos, quase iletrados. Essa plutocracia não carrega o Liberalismo; pelo contrário, dissemina os bacilos que levam à identificação da democracia com a miséria.



O que se passa na Tailândia deve ser visto como uma tentativa de apossamento do poder político por homens ricos, prodigiosamente ricos, que querem abater por inteiro uma sociedade capitalista para aqui imporem a lei de bronze do banditismo económico. Estão a tentar encontrar contrapesos ao poder chinês e indiano. Como na China já só é possível entrar de chapéu na mão, há que encontrar parceiros regionais fracos que forneçam a pataco mão de obra, que produzam legislação que permita comprar por inteiro a liberdade económica de que goza a Tailândia - a 5ª potência económica da Ásia - diversificando, assim, os países receptores do investimento ocidental.


Não lhes interessa saber se a Tailândia foi ou é, durante os últimos 60 anos, o mais fiel alinhado ocidental no Sudeste-Asiático; não lhes interessa saber que aqui a monarquia foi o elemento decisivo para conter o comunismo na região; não lhes interessa saber que metade do país vive da visão reformista de um rei que permitiu níveis de desenvolvimento social invejáveis: uma rede hospitalar e assistencial digna de nota, a escolarização que suprimiu o analfabetismo (99% dos tailandeses sabem ler e escrever, 25% dos jovens com menos de 23 anos acabam o ciclo escolar com diploma universitário), paz social e índice de criminalidade dos mais baixos do mundo, mobilidade de emprego e capacidade de absorver, todos os anos, mais 2 milhões de jovens no mercado de trabalho. Aqui não há fome e a pobreza, que nos anos 70 era condição natural para dois terços da população, reduz-se a 20%.



A plutocracia quer - assim o diz a geografia eleitoral - lançar o povo chão contra aqueles que foram obreiros de um dos mais bem sucedidos planos de desenvolvimento da segunda metade do século XX. Destruir os proprietários, evacuar o Estado da sua capacidade correctora - que permitiu obras públicas de nível europeu - cortar cerce as referências morais e culturais que permitem a força da cidadania; em suma, querem que isto se transforme numa enorme coutada dos tenentes da jogatana especulativa.



O Sr. Thaksin começou bem - como começa qualquer aldrabão - para depois mostrar em toda a extensão o que se propunha realizar. Privatizou, mandou comprar pela mão de testas de ferro para, de imediato, vender as empresas privatizadas a gente de Singapura, Taiwan e Malásia. Neste tráfico, protegido pelo poder que detinha, ganhou 78.000.000 milhões de baths. Isto não é capitalismo: é banditismo económico, traição económica, fragilização das defesas económicas numa região onde não há o guarda-chuva de uma União Europeia e onde cada um faz o que pode para vencer a crescente concorrência das economias vizinhas.



Para mais, Thaksin comportou-se como um sanguinolento déspota: matou milhares de pessoas nas campanhas que executou contra o tráfico e consumo de drogas, exerceu uma política de terror no Sul muçulmano que levou à radicalização independentista dessas províncias, fez censura à imprensa, lançou campanhas de "moralização" que colidiram com a proverbial tolerância deste povo. Eu fui testemunha presencial de alguns destes desmandos. Em 2004, de férias na Tailândia, assisti à execução a frio, na berma de uma estrada, de um rapaz que transportava uns gramas de ópio. Um ano volvido, quando aqui vim para realizar uma conferência a convite do Ministério da Cultura, novo instantâneo da brutalidade das políticas de Thaksin: a polícia dispersava com barras de ferro e cães uma pequena multidão de mulheres trabalhadoras que reclamavam jornadas de trabalho de...12 horas ! Este, caro Helder, é o tal "capitalismo selvagem". o fazedor de novos comunistas, o maior aliado dos inimigos da democracia.

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