04 dezembro 2008

Antes preferia ver os comunistas no poder


Hoje tive uma festa, raro acontecimento social para um bisonho insociável. Muita burguesia, muito fato caro, excelente vinho e boas iguarias. A alta sociedade thai, mais a boa sociedade expatriada, conversa de circunstância, troca de cartões, discreto check-in de estadão e rendimentos. Gostei, como todos gostamos de um pouco de espairecimento após semanas de tensão. O evento decorreu da melhor maneira e servindo os mais nobres intuitos: angariar fundos para a protecção dos elefantes, outrora divinos, hoje objecto da curiosidade da turistagem e fonte de cobres para os seus donos e exploradores.

Alegria, enfim, por encontrar os poucos amigos portugueses aqui residentes: o Miguel, director de uma unidade hoteleira, a Sara, a nossa belíssima professora de português. À "máfia portuguesa" em Banguecoque, como gostamos chamar ao reduzido grupo, juntaram-se amigos do coração tailandeses, quase irmãos que nos proporcionam sempre a melhor companhia. Mas senti que a Tailândia já não é a mesma. No meio de toda a dança, da bateria de flashes, das poses, sorrisos e gargalhadas, as pessoas estão apreensivas, há um não sei quê de iminente que ninguém se atreve pronunciar. Depois da alegria dos últimos dias, dir-se-ia que aqueles que perderam nos tribunais e na rua se preparam para retaliar. Um diplomata estrangeiro deu-me a prova dessa revindicta. Ao aproximar-me dele, como sempre com o maior dos sorrisos, recusou-se apertar-me a mão dizendo "dont shake hands with a monarchist". Fiquei banzado mas fiz-lhe a vontade: nunca mais me verá à frente, tremendo orgulhoso que sou. Acresce que nada lhe devo e se alguém deve algo a alguém pedir-lhe-ia os livros que lhe fui emprestando ao longo dos tempos e que nunca teve a elementar educação de devolver à proveniência.
A intromissão da diplomacia europeia, norte-americana e até, bazemos, sul-americana na intriga política tailandesa é sinal que qualquer coisa se deu nos últimos tempos. A mentalidadezinha neo-colonial e imperialista ocidental, agora limitada à abertura de mercados e profit, recoberta com as sagradas mentirinhas da liberdade e dos "direitos", pressiona, manobra, manda recados, toma partido. Para esta gente rica e desafogada, que nunca se deu conta que o Laos é um enorme campo de concentração comunista, que o Vietname é um Estado comunista totalitário, que a RPC é governada pelos filhos e netos de Mao, que Singapura é uma democracia de fachada, o que interessa é atirar o Rei pela borda-fora, revolver até à base a estratificação institucional siamesa, instalar um clima de luta que leve os tailandeses a dizerem que sim, que querem ser membros de corpo inteiro da "comunidade internacional" e, volvida a capitulação, colocar a familia real num avião. São os peritos da chantagem, da ameaça de sanções, do diálogo faz-de-conta. Se algo correr mal, não faz mal. Entram num avião e regressam, ricos e desafogados, aos seus escritórios de madeiras exóticas em Washington, Londres, Buenos Aires, Madrid e Berlim. Nunca lhes ouvi o mais pequeno reparo a respeito dos 20.000 presos políticos no Laos, mais os milhões de vietnamitas sem quaisquer direitos políticos, mais a legislação quase selvagem que vigora em Singapura a respeito daquelas pequenas coisas que nos permitem chamar homem a um homem. Isso não interessa. O importante é acabar com isto, custe o que custar. E depois têm o desaforo de chamar "reaccionários" aos outros. O que querem, sim, é uma Tailândia entregue a canalha desclassificada, com os seus Bush, os Berlusconnis, os Zapateros, mais os Kirchners e demais pedicures.
Regressei tarde e cansado a casa. No carro, os tailandeses, duas amigas e um amigo, confessaram-me serem todos incondicionais do PAD, mas não o devem dizer em público, pois as pressões - lembram-se do PREC ? - são enormes. E lá cantaram, rindo, a alegre marcha que toca em fundo deste desabafo: "somos felizes e bons assim, com o nosso Rei a velar pela vida desta terra (...) que goze sempre de boa saúde". Olhando para o ano que correu celere, para os livros que comprei e li, para os mil e um apontamentos que tirei, aceitei, finalmente, a evidência: entes uma Tailândia comunista que uma coisa de plástico e gente parva.

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