16 dezembro 2008

Banguecoque: a Veneza do Oriente em grandiosa exposição (1) / กรุงเทพมหานคร งานศิลปะ และ ประวัติศาสตร์




Os olhos não se cansam e os pés não param com tantos eventos de primeiras águas. Os tailandeses, decididamente, adquiriam as técnicas mais arrojadas e lançam-se em catadupa de exposições que, no Ocidente, entrariam pela porta grande dos maiores museus e salas de exposição. Hoje, depois de horas de leitura na biblioteca - sintomaticamente lendo uma memória histórica sobre a fundação de Banguecoque - visitei a Art of Yesterday, Art of Tommorow - patente no já aqui referido Bangkok Cultural Center.

Busto do general Taksin

Krung Thep Maha Nakhon, ou antes, Banguecoque para os ocidentais, era um simples lugarejo em meados do século XVIII, primeira paragem fluvial para o trade junk oriundo de Macau. Após fiscalização da carga e tripulação na foz do rio Chao Phraya (o rio em forma de serpente que atravessa a actual megalópole), as mercadorias eram transvasadas para embarcações de menor calado e transportadas para Ayuthia, então capital siamesa. Em 1767, Ayuthia foi assaltada e saqueada pelos exércitos birmaneses e o Estado thai entrou em colapso. Um líder surgiu nesse momento trágico e liderou a resistência ao invasor. O novo homem forte, Phya Taksin, verificando a indefensibilidade da antiga capital devastada, instalou-se em Tonburi, hoje cidade satélite de Banguecoque, situada da margem oposta do rio. O seu sucessor, general Chakri, fundador da actual dinastia, foi coroado rei em 1782 e decidiu erigir uma nova cidade na margem esquerda do Chao Phraya, menos exposta a incursões inimigas.



Os primeiros dias da nova mandala thai restaurada não foram fáceis: guerras intermináveis contra os birmaneses, penúria monetária e matérias primas, rarefacção demográfica e quase total ausência de funcionários qualificados. A dinastia Chakri queria demonstrar ocupar legitimamente o trono, pelo que não olhou a meios e sacrifícios para se lançar numa política de grandes obras que exibissem a restauração do Estado. Para o efeito, recorreu-se à pedra e tijolos da antiga capital, abriram-se portas à vaga de imigração chinesa, redesenhou-se a estrutura social dirigente. Nesses dias, muitos homens oriundos dos estratos sociais mais humildes ascenderam na administração e serviço do Rei. Entre eles pontificavam muitos católicos luso-siameses, que ocupariam doravante e até à década de 1860 postos relevantes. Nos frescos do novo coração do Estado, o complexo de palácios e templos, armazéns, casamatas e escritórios, aí estão eles, os portuguet, de mosquete e espingardas de pederneira em riste defendendo a cintura de muralhas.


Povo anfíbio, "civilização hidráulica", "economia do arroz", o Reino do Sião construiu a sua capital em terrenos propícios à produção e escoamento do precioso gramíneo. Os canais (artificiais) que até há décadas substituíam as estradas, abertos pelo trabalho obrigatório das corveias do sistema sakdina - "feudalismo siamês - de que eram isentos os portuguet, merecereram a curiosidade dos viajantes europeus, que passaram a referir-se a Banguecoque como a "Veneza do Oriente".



Em meados do século XIX, a capital do Sião mostrava o desiquilíbrio e diversidade característicos das grandes cidades agro-mercantis do sudeste-asiático. Tal como Rangoon na Birmâmia, sobre o Irrawady e Saigão sobre o Song Sai Gon, possuía um núcleo administrativo e religioso com grandes edifícios de prestígio, envolvido por um dédalo de caminhos cercados de construções de materiais perecíveis, com lojas para a rua no andar térreo e habitação no primeiro piso, habitadas por siameses. Outras "baixas" comerciais e industriais nasceram em zonas mais distantes, acolhendo comunidades étnicas de origem vária, sobretudo chineses, mas também indianos e malaios, que se foram fixando e afirmando ao longo do século XIX. Os "enclaves" das minorias religiosas, "mouros" e católicos, desenvolveram-se na zona ribeirinha em torno de mesquitas e igrejas.


Ananta Samakhom (sala do trono): estudos para abóbada

O impacto ocidental foi traumático, crescendo de intensidade a partir dos meados do século XIX e levando o Sião a adaptar-se cultural, tecnológica e institucionalmente ao Ocidente, sob pena de ser considerado um "Estado bárbaro" e intervencionado pelo leão britânico, que entretanto se apossara da Birmânia e sultanatos malaios, e pelo galo francês que havia cravado unhas sobre os actuais Laos e Camboja, territórios outrora vassalos do Sião. Datam das décadas de 1870, 1880 e 1890 os grandes edifícios públicos de aparato, feitos à imagem da arquitectura de pedra, cimento e ferro europeus. Soluções arquitectónicas híbridas, onde a mão de arquitectos, decoradores, pintores e desenhadores italianos é marcante, expressam a angustiosa procura de um "modelo siamês" integrado numa linha internacional.


(Continua amanhã)

3 comentários:

Mocho Falante disse...

ora viva

e aqui vim parar quase por acaso e deliciei-me com este blog. Muitos Parabéns pela escrita e pelos temas, sem dúvida cheio de interesse

um abraço

Nuno Castelo-Branco disse...

Sabes do que tenho imensa pena? Do desaparecimento dos canais, desde o da Sathorn, até ao de Pratunam. Vão sendo substituídos pelo betão e da primeira vez que aí estive, recordo-me de ter lido no bangkok Post um artigo em que o Rei se pronunciava abertamente contra a destruição ambiental de que o fim dos canais era um exemplo. Como sempre, tinha razão: Som Pracha-aran!

joshua disse...

Factos de que necessitamos saber, caro Miguel. É graças a ti que o pulmão oriental português como que ressurge e se reconhece talvez com um fulgor renovado, regerminação de uma vocação impossível de sufocar.

Andamos tantos séculos numa velha cumplicidade oriental, hoje baça,esquecida e traída pelas prioridades devoristas do Regime obsolescente no rectângulo.

Ânimo e alegria em todos os passos e pesquisas!

Abraço
joshua

PALAVROSSAVRVS REX