09 dezembro 2008

Alçada: pequena história


Confesso nunca ter morrido de amores pela escrita de Alçada, sobretudo a escrita menor de um envolvido na para-política de que o regime se socorre para dar polimento a uma classe política sem classe alguma. Assim pensei até me aperceber que Alçada estava lá [no regime] mas não estava, pois "eles" precisavam dele e ele teria feito a vida que sempre fez, escrito e lido, amado as coisas belas da vida sem precisar do patrocínio de um qualquer medíocre alcandorado a ministro. Era um homem fino, delicado e cortês sem ser um homem de salão. Guardo, orgulhoso, uma pequena história que comigo se passou um dia, há cerca de quinze anos, na embaixada do Brasil. O então embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira, gostava de mim e convidava-me para todos os eventos que a sua incansável criatividade ia produzindo para namorar os portugueses para a realização do sonho da sua vida: a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Com ele mantive intermináveis discussões, ele um homem da esquerda trabalhista, eu de direita e monárquico.


Um dia, Aparecido quis reunir em tertúlia uma dúzia de políticos, jornalistas, literatos e outros opinativos para discutir o manifesto da CPLP. Lá estava a velha e gorda esquerda do regime, os camaleões de sempre, os escribas de serviço cativo, mais dois ou três deputados. Quando me pediu a palavra disse o que tinha a dizer, mas logo um director da comunicação social "pensar bem" me cortou a palavra dizendo não querer ouvir "reacionarices". O Alçada levantou-se, tocou-me no braço, retirou os óculos e disse: "meus amigos, estou aqui há quase duas horas e a únicas palavras de préstimo que ouvi foram ditas pelo Miguel". Depois, dirigindo-se ao embaixador, que rebolava de satisfação, acrescentou: "se V. Ex.ª quer duas penas para um manifesto, aqui ofereço o meu humilde cálamo só, e só se, o Miguel estiver comigo". Obrigado Alçada. A liberdade não é aquilo que se diz da boca para fora. A liberdade exige a ética da liberdade e só vive em tensão. A liberdade totalitária, a única, a que não se pode discutir, não é liberdade, é tirania envergonhada.

1 comentário:

de.puta.madre disse...

Olá, Miguel.
Que bom saber que é possível comentar ...
"O parecer bem" é muito castrador y muito propício a que a tirania ganhe lastro ...
Vale.

PS.:Vim cá parar via Portugal dos pequeninos ...