18 novembro 2008

Superar-nos, sempre

Os meus exercícios de escrita thai

Não replicarei ao confrade Jansenista sobre as evidentes qualidades inerentes ao viver habitualmente, qualidades do estado adulto, porquanto as subscrevo integralmente. As virtudes cardinais da justiça, da fortaleza, da prudência e da temperança só se realizam quando morre o fogo da impetuosidade vã, a acrimónia, o excesso e a errância que caracterizam a procura da identidade, pelo que um adulto possuído pelo extremismo provocatório ou pelo afã de condicionar os outros é sempre um perigoso retardado. Como sempre, os puros são os mais perigosos. Os castos, os penitentes e os homens que se julgam tomados por um dedo invisível acabam, sempre, por cometer aqueles pecados veniais da soberba e da ira, não raro exibindo também os da preguiça - "se os outros não me querem, por eles nada farei" - e o dessa outra forma de luxúria que é o viver para si, para a sua pureza e para o seu pequeno mundo que querem universalizar. As pessoas mais malsãs que conheci ao longo da vida eram, quase todas, "pessoas religiosas": delas transpirava arrogância, falsa modéstia, intolerância a extremos de crueldade, desprezo pela sorte dos outros, incapacidade de amar, de oferecer e partilhar. No mesmo registo estão, também, os sôfregos da vida, aqueles que nunca param, que da vida tudo querem tomar: são os consumidores de pessoas, de comida, de objectos, de empregos, de livros e de "amizades". Essa sofreguidão perde ponto de aplicação e transforma-os em doentes egolátricos. Por isso, detesto os convivialistas profissionais, os homens e mulheres amigos de todos, os carreiristas e os curriculistas, mais os adesivos, os intelectuais, os modistas e os consensualistas, sempre à tona, sempre em movimento de expansão sobre os outros. Essa gente, no momento em que desce à terra, volatiliza-se. Delas nada fica.

Pode-se ser heróico, viver em estado de tensão lúcida, desafiar as Portas de Tebas sem sair da casinhota do mais remoto e ignoto lugarejo. As irmãs Brontë viveram em absoluta heroicidade habitual em Haworth, entre as charnecas sem vivalma do Yorshire, mas deixaram tal sulco que hoje nada sabemos da vida sem ter passado pelo Morro dos Ventos Uivantes. Li em tempos Julien Freund, que jamais tendo sido um pensador da moda, relançou a visão de uma antropologia fundada no rigor, na exigência, no dever e na responsabilidade, desmascarando a direita rotunda dos negócios na carteira e do liberalismo na garganta e desautorizando a esquerda revolucionária que vive, afinal, toda derrancada na invejosa ânsia de possuir, roubando aquilo que não lhe pertence.

A heroicidade é um dado infuso a qualquer homem. Não penso, contudo, que essa heroicidade seja a de uma qualquer "epopeia do homem comum", pois os homens comuns vivem presos, apenas, aos dados imediatos da existência e se lhes dá para outros vôos, dá-lhes para castigar, torturar e infernizar os outros. Ou não são os obcecados da moral, das "virtudes" e dos "valores" as mais insignificantes criaturas que povoam o planeta ? O confrade Jansenista leu, certamente, o If de Kipling. Ali está, despojada de artifício, a heroicidade.

Olhe, eu também sou, na minha pequenês, um candidato a herói. Quando para aqui vim, não falava nem escrevia uma língua que entre nós não contará mais de meia dúzia de interessados. São sete, oito horas de estudo diário, a que somo outras tantas para a preparação de trabalho académico. Faço tudo por superar a preguiça e as desculpas evasivas. Podia ficar na cama, entregar-me ao sibaritismo, esgotar-me em jogos sociais. Acho, contudo, que estudar é mais importante: para mim, para o meu futuro, para a profissão que escolhi e para Portugal. Sei que Portugal de mim nada quererá pelas razões aqui bastamente convocadas. Mas o que interessa isso se me sentir bem com as canseiras a que gostosamente me entreguei ?

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