30 novembro 2008

Revolução tradicionalista



Não, já não é uma revolta, agora é uma revolução. O PREC ao contrário que se desenvolve na Tailândia desde 25 de Maio - comícios ininterruptos, 24 horas por dia, reunindo agora mais de 80.000 pessoas em Banguecoque - dá plena expressão àquela obscura frase de Joseph De Maistre, segundo o qual "a contra-revolução não será uma revolução, mas o contrário da revolução". As coisas são assim. Se a revolução viesse das esquerdas, a ocupação de aeroportos, as barricadas, as greves, os piquetes, os enfrentamentos com a policia, os estribilhos, as colagens, as braçadeiras e toda a adereçagem romântica inerente às revoluções seria interpretada como uma "necessidade histórica", "violência legítima contra a violência do Estado", "mal necessário" e expressão da "fúria popular". Mas não, aqui é o contrário das esquerdas quem mobiliza milhões, quem conquista e domina as ruas, quem atira pedras às forças da ordem, chama "fantoches" ao governo e partidos do parlamento e se organiza em anti-governo e para-Estado. É um acontecimento, talvez de magnitude apenas comparável aos eventos do Irão de 1979. Ontem não consegui pregar olho. A mais de cinco quilómetros da minha casa havia comício em grande na sede do governo, ocupada há mais de dois meses pelos tradicionalistas. Bandas rock, música tradicional e cânticos patrióticos faziam tamanha barulheira que o vento as trazia ampliadas. Hoje saí cedo, para ir ao mercado. Pelo caminho cruzei-me com uma caravana automóvel. Duzentos ou mais carros apinhados de gente empunhando bandeiras do PAD, faixas amarelas cingidas na fronte, punhos cerrados, palavras de ordem, retratos do Rei. Eram jovens, muitos jovens, muitas mulheres, até crianças de colo fazendo uma algazarra insurdecedora rumando em direcção ao aeroporto internacional de Banguecoque. No meio desta multidão heteróclita, muitos muçulmanos, minoria aliada dos revoltosos, em resposta às chacinas que o ex-primeiro ministro Thaksim mandou cometer no sul do país. Lobriguei, também - quem não lhes conhece o estilo - membros da elite aristocrática, exibindo crânio rapado com um tufo de cabelos no cocuruto da cabeça. É claro que, depois de tudo isto, a Tailândia jamais será a mesma. Voltei a casa. Nova surpresa. As lavadeiras não aceitam trabalho para hoje. Trajando de amarelo dizem-me com sorriso vitorioso que vão para o comício para "defender o Rei dos homens da máfia [i.e, do governo]" ! Estamos em revolução, mas o contrário de uma revolução. Não sei se são a maioria ou uma minoria, mas noutras revoluções alguém formulou tal pergunta ?

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