07 novembro 2008

Os EUA do apartheid


Ao longo da campanha que agora se finou, foi notória a ausência dos povos aborígenes, daqueles que desapareceram do palco da história pela caça que lhes foi movida, implacável e sem quartel ao longo de duzentos anos; dos sobreviventes exterminados pela varíola e pela sífilis; dos alcoolizados confinados a reservas inóspitas; dos alienados pela imposição de programas de "desenvolvimento separado" (leia-se Apartheid). O extermínio dos peles-vermelhas será, quiçá, juntamente com o genocídio dos tasmanes, um dos mais tremendos casos de aplicação metódica de limpeza étnica na história ocidental.
Se os descendentes dos escravos negros mereceram sempre a atenção e solidariedade de mentes bem formadas, para o índio não houve comiseração, complacência nem respeito. O índio nunca entrou na Constituição, nas leis e instituições que lhes dão expressão. Se aí foi objecto de atenção, foi para o isolar como caso perdido fora da cidadania. Nas sociedades modernas, urbanas, estratificadas em produtores, proprietários, trabalho e rendimento, o índio não cabia, nem cabe, pelo que os EUA, construídos sobre os cemitérios desses povos, jamais lhes quiseram dar o nome que é seu por inerência: o de americanos. As culturas índias ofenderam as crenças do intruso europeu: ali não havia propriedade, desconhecia-se o trabalho, a especialização e o dinheiro. Ora, o europeu arribadado ao Novo Mundo - a escória da plebe ou casos perdidos de fanatismo religioso - tinha sede de terra, afirmação individual, dinheiro e conforto. A terra que queria era habitada por "selvagens". O espírito de missão do liberalismo euro-americano não olhou a meios: fez desaparecer, do Atlântico ao Pacífico, das florestas semi-árticas aos desertos do Texas tudo o que lembrasse que aquela terra de promissão fora ocupada ao longo de 15.000 anos por cinco milhões de seres humanos.
O negro escravo servia para arrotear, semear o algodão, garimpar e escavar montanhas. Depois, com o advento do vapor, o trabalho escravo desapareceu e pintou-se a fábula da abolição. O negro passou a criado doméstico, trolha, moço de recados, bem atado em legislação que o colocava ao nível de ilota A manifesta relação utilitária entre o negro e a economia americana expressa-se pela dimensão da comunidade negra: eram 20% da população por alturas da independência, 12% após o colapso da Confederação (1865), 9% em 1940. Hoje, há proporcionalmente menos negros nos EUA que em 1776, desmentindo a vaga natalista com que os assustados WASP continuam a assustar os tementes de catástrofes. O índio não cultivava, não carregava nem sabia o que era uma cozinha, pelo que foi colocado fora da vista, sucessivamente empurrado para, finalmente, cair sob o fogo dos rifles.
Não experimentei qualquer comoção com a vitória de Obama. Era tão previsível como a próxima ascensão à Casa Branca de um "hispânico". Os impérios são todos multirraciais. Os romanos tiveram imperadores sírios, africanos, trácios, hispânicos e ilírios e Roma era, no século II, uma cidade povoada pelos mais desvairados povos, línguas e crenças. O que senti, sim, foi que os índios, aos quais foi dada cidadania nominal apenas em 1924, continuam sob a lei dos "bantustões índios". Há hoje 560 governos autónomos índios (calcula-se), mas privados do mais ínfimo vestígio de soberania. As reservas são administradas por nomeação de Washington e o negócio dos casinos, única fonte de receitas, é largamente controlado por redes mafiosas. Os índios são os menos escolarizados, os mais pobres e menos privilegiados pelas agências federais. Com a integração dos africanos gastou-se, entre 1963 e 1990, tanto quanto se aplicou na conquista do espaço. Para os índios, dominados por pequenos régulos corruptos e incapazes, não há aliados. Os negros não lhes perdoam terem sido caçadores de escravos fugidos, que devolvidos aos proprietários brancos rendiam armas de fogo, vestuário e alimentos. Os euro-americanos não lhes perdoam terem sido aliados dos britânicos na "Guerra da Independência", aliados dos mexicanos na guerra de 1846 e depois dos rebeldes sulistas. O índio ficou de lado, nas fitas de cowboys e na literatura de timbre romântico.



Sinfonia do Novo Mundo (Dvořák)

Sem comentários: