04 novembro 2008

Messianismo


A vaga obamista surpreende-nos. Quase duzentos anos depois da profecia de Tocqueville no De la démocratie en Amérique - a da edificação de um despotismo brando, da tirania da ignorância e do predomínio dos preconceitos do homem banal - vejo-a realizada no olhar cintilante e sorriso angelicar, terno pestanejar e aleluias com que o mundo espera o Messias. É duplamente perigoso, pois se para os EUA pode reeditar a cavalgada desastrosa que marcou outra passagem messiânica pela Sala Oval (Jimmy Carter), que se saldou pelo quase colapso do bom-senso na política externa norte-americana, pode provocar também a completa demissão das obrigações globais dos EUA e a tentação de uma nova vaga isolacionista, que penalizaria todo o Ocidente e seus aliados. Perigoso, também, para Portugal, pois Obama quer dizer África - ou antes, política africana norte-americana - que no passado deu sobejas provas de intrusão nas relações bilaterais entre as ex-potências coloniais e respectivas esferas de influência. Perigoso, ainda, pois pode dar carta branca à aceitação pelo facto do status quo, o que quer dizer "manter, porque existem", regimes que são, na essência e prática, absolutamente a negação da perspectiva ocidental dos negócios do mundo.


Deanna Durbin - Begin the Beguine (1943)

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