30 novembro 2008

Combustões no aeroporto de Suvarnabhumi


Foi um repente de oportunidade que se abriu ao fim da tarde. Em frente de minha casa, um oficial da polícia, vizinho com quem nunca havia trocado palavra, disse-me que estava de partida para o aeroporto de Banguecoque e que me levaria se eu quisesse assistir a um "aontecimento histórico". Com ele, dois rapazes, a mulher e uma criança vestiam integralmente de amarelo da cabeça aos pés, cingindo a fronte com a palavra de ordem do momento: "Nós Amamos o Rei = Ráw Rák Nay Luang". Nem hesitei. Meti-me no jeep e lá fomos. Confesso que ao lusco-fusco a moderna e larga auto-estrada me encheu de apreensão. Não havia vivalma, ocorrendo-me apenas um daqueles filmes sobre catátrofes naturais ou que uma epidemia vitimara toda a gente e apenas deixara as obras de arte arquitectónicas intactas. Vinte e tal quilómetros de vazio, sem um polícia, um soldado. Temi que um grupo de adeptos do governo - os "vermelhos" - se atravessasse no caminho e de nós fizesse carne picada. Felizmente, nada se passou. A uns dois mil metros do imenso terminal - um dos maiores do mundo - as primeiras barragens dos Tradicionalistas.

Um carro dos serviços anti-fogo atravessava a estrada. A seu lado, arame farpado e "dentes de dragão" improvisados visando impedir a arremetida de blindados governamentais. Uns cem homens armados de bastões, machetes, sticks de golfe e armas de caça em atalaia para qualquer eventualidade. Deixaram-nos passar depois de breve interrogatório: "quem são ?", "quem é o farang ?". O condutor disse-lhes o que queriam ouvir e lá seguimos.


Mais duzentos metros, nova barricada, agora provida de um escudo humano. Entre a multidão, um notório grupo de muçulmanos com as suas barbichas em cone, cofió na cabeça e trajos do Sul exibiam volumosas barras de ferro cujo efeito deve ser devastador. Reparei que à esquerda, com vista sobre a autoestrada que passa por baixo, vários homens empunhavam binóculos de visão nocturna.

Eis-nos chegados ao eoroporto. Por aqui passam, em dias normais, dezenas de milhares de passageiros. Hoje estava absolutamente deserto, mas o ar condicionado, a iluminação e até os serviços de limpeza continuam a funcionar como se nada tivesse acontecido. Como verificara na Palácio do Governo, que visitei há dois meses, os piquetes de limpeza dos revoltosos trabalham como se tudo aquilo lhes pertencesse.

Subi as escadas para o patamar onde se situam as representações das mil e uma linhas aéreas que demandam Banguecoque. Uma banca de víveres [gratuitos] servia chá, café, água, refrigerantes, bolos e sandwiches. Atentei num cartaz destinado a informar os estrangeiros da luta que os anima.

"Nós somos os mais pacíficos protestantes: bombardeados, alvejados a tiro, feridos e mortos, aqui continuamos em protesto pacífico". Nos últimos dias, foguetes anti-carro têm chovido sobre a multidão que se acotovela na Casa do Governo, bombas têm rebentado, apoiantes rebeldes alvejados a tiro por milicianos supostamente afectos ao governo, mas aquela gente não arreda pé. Tais ataques, ao invés de amedrontarem, reforçam o ânimo desta gente em levar até ao fim aquilo que dizem ser o interesse nacional, a defesa da coroa e a liberdade. Não tomando partido, como observador estrangeiro interessado na vida política deste país, sinto que estado de alma semelhante não encontraria na Europa, dada a grandes efusões de um dia, mas que não resiste às canseiras de vigílias intermináveis, ao dormir no chão, às rações de combate e ao medo de perder a vida, o emprego e o conforto. São as diferenças.


Onde antes se fazia o check-in de malas e passageiros, hoje está a imprensa, as agências noticiosas, os enviados especiais, as televisões e rádios de meio globo, um acampamento tecnológico único destinado a captar o eventual assalto ao aeroporto. Os jornalistas são alimentados pelos rebeldes e até vi um jornalista de Hong Kong a partilhar uma refeição com uma família muçulmana.

Encontro com o pequeno génio do futebol infantil tailandês. A um canto, entretendo os jornalistas, o micro-jogador com dois atestados guiness exibe as suas habilidades. Bastou um pequeno aceno e um "nong, krub, chuey show pé bon nóy" ("irmãozinho, mostra-me o que sabes fazer com a bola") para a criança lançar a bola para a base da garrafa e aí a deixar imóvel durante uns largos minutos. Depois, quis-nos mostrar que a consegue chutar alternadamente com o pé direito e esquerdo de olhos fechados, atirá-la para as costas e logo a voltar a chutar dando saltos de malabarista. Deixei-lhe 20 Bath numa caixa para o peditório "para comprar mais bolas". Mas não estava ali para ver o pequeno futuro Pelé siamês. Queria ver a gente, a multidão.


Um homem cruza-se no meu caminho e insiste que lhe tire uma foto. Coloca-a, como fazem os thais, em cima da cabeça, demonstrando o lugar que o Rei ocupa na sua vida: acima da cabeça, acima da sua vida, perto do céu. É um taxista e diz que veio com os irmãos da sua província, a mais de 300 quilómetros, para dar o seu pequeno contributo à "luta final".


O grandioso hall está transformado em acampamento. Avaliei em duas ou três mil pessoas as que ali se deitam, seguem os noticiários, comem, conversam ou cantam. Um homem idoso, de fino perfil que denota a origem social, chama-nos num inglês correcto e diz "digam lá para fora que somos gente boa que só quer o bem do nosso país e não somos hooligans como dizem na CNN e noutras televisões amigas de Thaksin".

Saí, finalmente, do edifício. Lá fora, a multidão que podem verificar, umas seis ou sete mil pessoas sentadas em esteiras no chão acompanham os discursos dos oradores e músicos que animam a festa. Ontem estavam quatro ou cinco vezes mais assistentes, pois amanhã é dia de trabalho e as pessoas não podem deixar de comparecer nos seus escritórios. Dizem-me que no outro aeroporto da capital - Don Muang - estarão outras cinco mil, mais as cinco mil eternamente postadas no Palácio do Governo. Esta mole é acolhida, alimentada, tratada e protegida pelo "Exército Budista da Tailândia", o que exige dinheiro e trabalho voluntário prestado por médicos, enfermeiros, socorristas, estudantes e monges. A Tailândia está em polvorosa, mas, fiel ao meu compromisso de não me deixar contaminar por qualquer paixão, só posso confessar que esta gente não me pareceu perigosa e que bom seria que tudo terminasse sem efusão inútil de sangue.

Hora de regressar a Banguecoque. A passadeira deixa a mais patética advertência: proibido parar ! É a revolução e a suas inversões semânticas. A ordem soa-me tão falsa como as ameaças além-túmulo que os faraós faziam aos perturbadores do seu sono eterno, mas penso que os rebeldes a lerão ao contrário: "rebelde, agora é proibido parares".

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