14 outubro 2008

Ásia alemã



Quanto mais vou abrindo caminhos na investigação que aqui desenvolvo sobre as relações entre Portugal e o Sião nos séculos XIX e XX, as certezas com que vim armado vão-se desvanecendo perante bibliografia inacessível na Europa e só consultável nas excelentes bibliotecas e centros documentais patrocinados pelos monarcas tailandeses. Estava quase convencido que a Ásia se deixara fascinar pelo Reino Unido e do seu Raj fizera cópia autenticada pelos conselheiros britânicos que entre 1850 e os anos 20 do século passado partejaram a modernidade neste canto do mundo. Contudo, ainda poderia supor que franceses e norte-americanos, que por aqui também andaram em aventuras coloniais, tivessem deixado sulco profundo. Mas não. Afinal, os dois protagonistas escondidos pela bibliografia anglo-saxónica hoje predominante foram os russos - que inspiraram as autocracias ocidentalizadas - e os alemães, com a sua tecnologia de ponta, o seu sentido de organização, a sua competência como engenheiros ferroviários, mestres militares e burocratas sem mácula. A Alemanha, aqui, esteve quase a ganhar a cartada na competição com os britânicos. Antes da Primeira Guerra Mundial, dos 400 conselheiros ocidentais trabalhando no Sião, quase metade eram súbditos de Guilherme II. Esta relevância marcava também a balança de transações comerciais, com quase 40% do volume total de mercadorias aqui entradas. Os alemães são, positivamente, reverenciados pelos asiáticos pois, sendo contrapeso a britânicos e franceses e não possuindo historial digno de nota nas guerras de agressão contra os Estados independentes remanescentes à onda imperialista - com excepção das fanfarronadas do Kaiser aquando da Revolta dos Boxers na China em 1900 - desenvolveram importante contributo, quase desinteressado, no estímulo à industrialização, urbanização e maquinização de sociedades predominantemente rurais. O Sião declarou guerra à Alemanha, em 1917, mas o ministro siamês que transmitiu a decisão ao embaixador germânico, chorou como uma criança pedindo desculpas. O alemão respondeu-lhe que o Sião, não obstante estar em guerra com os Impérios Centrais, seria sempre poupado à guerra submarina e que seria sempre considerado um amigo pelo Reich. Esta posição foi reforçada no Reichtag pelo chanceler Bethmann-Hollweg, o qual, em emocionado discurso, fez referência aos muitos príncipes siameses que haviam passado pelas academias militares teutónicas e delas recebendo educação alemã. O pai do actual monarca, Mahidol Adulyadej, Príncipe de Songkla, cursou a Academia de Marinha em Flensburg.




Príncipe Mahidol de Songkla


Depois da Grande Guerra, a desagregação do exército alemão provocou uma vaga migratória sem precedentes. Por todo o mundo surgiram conselheiros alemães: na Bolívia, no Paraguai, no Sião e na China chegaram mesmo a receber comando militar directo ou altas funções como inspectores responsáveis pela modernização das forças armadas. A China conheceu, através da Missão Militar Alemã, um momento alemão. à cabeça dos exércitos dos Nacionalistas estava Alexander von Falkenhausen, um general prussiano que inspirou a mais bem sucedida vaga modernizadora no antigo Império do Meio. Folheando directórios comerciais e registos de marcas e patentes do Sião dos anos 20 e 30, as marcas, companhias e nomes alemães afloram em cada página. No fim dos anos 30, recuo. A política externa desastrosa de Hitler deitou tudo a perder. Trocou a China pelo Japão e ofereceu a esfera de influência que detinha no Sião aos japoneses. Os erros do homem foram tremendos. Não tivesse havido o seu efémero Reich e hoje, do Sudeste-Asiático ao Extremo Oriente, a Alemanha seria a maior referência ocidental. O Rei do Sião, Rama VII, esteve na Alemanha em 1935. Recebido por um delicodoce Hitler, dele não mais retirou que espinhas recurvadas e banquetes. Hitler, um primário, ainda era devoto da crença no "perigo asiático", mito muito divulgado entre a pequeníssima burguesia europeia no princípio do século. Foi uma oportunidade perdida. E assim, a Alemanha perdeu a cartada asiática e perdeu a China, que em vez de se juntar aos Aliados na Segunda Guerra Mundial poderia ter sido uma enorme dor de cabeça para os EUA e Grã-Bretanha. Ontem fui ao Colégio Alemão de Banguecoque. Parece um bocado da Alemanha nos trópicos. Fiquei surpreendido. São centos de estudantes os que ali aprendem o idioma de Goethe. Até ouvi trechos de opereta alemã que inundavam a excelente biblioteca. Não obstante a americanização crescente, dir-se-ia que esta gente olha os alemães como amigos. Pena foi Hitler ter chegado onde chegou.

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