27 outubro 2008

O Instituto Camões e o Brasil


Hoje fui à Alliance Française de Banguecoque. É sabido que a França perdeu a corrida pela língua universal, até o estatuto de língua culta global - substituída pelo inglês e até pelo espanhol - lhe fugiu, faltando agora cair em desuso enquanto língua diplomática. Para os negócios, ninguém a quer; para o estudo e a leitura especializadas, já só sobrevive através da tradução obras de cientistas seus para o inglês; como língua literária, só interessa a eruditos. O colapso francês foi tão rápido e fulminante que os francófilos se viram condenados a reler obras datadas ou aprender o inglês para não cairem na marginalidade cultural. Eu não lamento o soçobrar do francês, pois a arrogância desmedida, o umbiguismo pedante e a teimosa recusa em olhar tudo o que sempre desprezou, correu por conta desse quixotismo - chamar-lhe-ia D'Artanhada - poseur que não encontra eco na crescente industrialização da cultura. O "método francês" caiu em desuso, o alambicado redondo e a prioridade pela forma, em detrimento do conteúdo, fizeram essa língua perder curiosos, amigos e entusiastas.


Ao invés, a língua portuguesa, contrariando os mais negros vaticínios, cresceu acompanhando a espantosa ascensão do castelhano. Em África, sobreviveu e cresce enquanto língua veícular, língua de poder e selecção de quadros. Na América do Sul, já se estuda e fala no Uruguai, na Argentina e Paraguai, acompanhando a emergência do Brasil e satelização das economias circunvizinhas. Nos EUA, são tantos os departamentos e leitorados de português que dir-se-ia vivermos uma verdadeira primavera de florescência de vocações. Na Ásia, sobretudo na China e Japão, mas também na Coreia e Índia, o português foi-se afirmando empurrado pelas trocas comerciais entre o Brasil e essas grandes potências económicas e pelo crescente interesse pela cultura brasileira, da mais duvidosa - que conquista sucessivas editoras e milhões de leitores, como é o caso de Paulo Coelho - à mais cativante. O timbre e os ritmos brasileiros inundam a "música enlatada" em supermercados, aeroportos, consultórios médicos, centros comerciais e programas de entretenimento facultados pelas companhias aéreas; o cinema brasileiro ganhou vastos mercados; o estilo brasileiro, com o seu toque de exótico e colorido, prendeu muitos amantes do diferente. Veja-se como as sandálias brasileiras, os fatos de banho e os óculos escuros saídos de Copacabana fazem parte da vestimenta da juventude dos países tropicais e até das costas ocidental e sul dos EUA.


Contudo, o Brasil, inerte e incapaz de projectar o seu grande potencial, continua comodamente a viver do esforço português. É inacreditável que este parasitismo se faça sem que as nossas autoridades elejam o tema como tópico para uma das habituais cimeiras luso-brasileiras. O Instituto Camões, quase falido, vai trabalhando por esse mundo fora para a diplomacia económica brasileira. O Brasil não tem um leitorado, uma revista cultural, um programa de ensino da língua comum, nem se predispôs enviar mais que 50 míseros professores para Timor-Leste, contrastando com os 150 portugueses que ali desenvolvem verdadeira missionação linguística há mais de cinco anos. É um escândalo que tal gigante se reduza voluntariamente ao papel de colosso sem cérebro.

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