07 outubro 2008

Notas de um não-economista sobre a crise

Ao contrário dos liberais à outrance, a crise em alastramento vem comprovar que os indivíduos se movimentam apenas pelo interesse egoísta, que a racionalidade no sistema bolsista se circunscreve à operacionalidade corrente e que as emoções comandam e sobrelevam o jogo. Tal como em 1929 e em 1987, as crises são provocadas pela absoluta impreparação dos operadores e accionistas em prever cenários de catástrofe, e se deles estão avisados pela experiência do capitalismo, agem sempre como se tal não existisse, como o jogador de casino que se deixa subjugar pela orgia especulativa antes de soçobrar na fatal sorte dos números. Um clássico devia repousar na cabeceira dos meninos parvos que se agitam na bolsa. Falo, obviamente, do The Great Crash 1929, de Galbrait, que detectou nos booms e nas "bolhas" comportamentos absolutamente irracionais impostos pela ganância. A Economia é uma ciência social, pelo que há que desconfiar de economistas iletrados, privados de informação histórica e sociológica básicas, assim como da dimensão cultural do fenómeno económico. Como alguém dizia, "um economista que só sabe de Economia, nem de economia sabe". Temos sido governados por estes economistas privados de leitura, verdadeiros bárbaros que não conseguem - pois não podem - ver para além das fórmulas que a geringonça académica impõe. Temos passado décadas sob a batuta de tais insignificâncias e tamanha foi a devastação causada pelas criaturas que de fora ficaram o interesse nacional, a inadequação do ensino à realidade envolvente e o sonho da riqueza sem indústria, maleita recorrente na história económica portuguesa. Em nome das "mãos limpas" - mãos que não se sujam no trabalho das fábricas, no trabalho dos campos, no martelo e no maçarico, na cabulagem da electrónica e na massa do cimento - fizemos duas gerações de imbecis semi-analfabetos enterrados nos fatecos de pronto-a-vestir com que os filhos e netos dos retirantes da província se exibem em ilusória alforria. Em nome do sonho da riqueza sem trabalho, destruiu-se a indústria, abandonaram-se as explorações agrícolas, desmantelou-se a marinha mercante e a frota pesqueira. Agora, que de novo sopram ventos proteccionistas e que os Estados se voltam para a economia após dela se haverem alheado, estamos nús.

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