20 outubro 2008

Não podem connosco


Primeiro, um sorrisinho irónico, como quem diz "olha o portuguesinho, o pobretanas, o papista da Inquisição, da escravatura e das guerras coloniais que veio ter à Europa para nos sorver os subsídios e agora anda pela Ásia". Depois, quando no plano da absoluta igualdade tratamos de matéria não recoberta pelo preconceito, quando me vêem falar thai com os thais, francês com os franceses, alemão com os alemães e até espanhol com aquela holandesa que queria brilhar com o castelhano aprendido no Cervantes, uma observação ainda mais pérfida: "você não parece português". O vexame de uma holandesa com cara de Göring não ficou sem resposta. Lembrei-me logo dos relatos de viagens dos globetrotters ingleses que deixaram registo do arsenal de desdém por nós. Um deles, escarninho, dizia em 1902: "no vapor que me levava de Singapura ao Sião havia meia dúzia de europeus, um mar de chineses, indianos, malaios e alguns portugueses de pele escura". Ao francês e à holandesa com aquela língua que não é língua, mas uma doença de garganta, lembrei que a minha língua é a terceira mais falada no Hemisfério Ocidental, ao inglês que aqui tivemos embaixada em 1511 e relações de Estado a Estado quando por aqui só chegavam piratas e comerciantes recebidos como tributários pelo rei do Sião. Em toda a conversa de sorrisos e canivetes só tive - claro - o alemão como aliado, o qual lembrou certeiramente que os portugueses são um povo cheio de qualidades e que um dia, quando a Europa cair de novo e se transformar num extremo ocidental do continente euro-asiático, o Brasil será, talvez, depois dos EUA, o segundo país mais forte do Ocidente. Como sempre, os alemães a defenderem Portugal.

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