16 outubro 2008

Guerra entre a Tailândia e o Camboja:esclarecimento (1)


A Tailândia e o Camboja disputam militarmente uma pequena faixa de terra onde se situa o templo khmer de Phra Vihar (em khmer Preah Vihear). Lendo os jornais portugueses acessíveis em linha, espanto-me a cada passo pela tremenda falta de balizamento conceptual com que os senhores jornalistas, muito afeitos a um "Direito Internacional" feito à imagem das ideias ocidentais de fronteira e soberania, encaram esta luta fronteiriça. Sei que em Portugal os estudos orientais são coisa para meia dúzia de sábios, que estes jamais são consultados pelos governantes para exprimir, educando, como funcionam as relações entre Estados tributários da doutrina budista e que há muito menino armado de mestrados em Rel. Int. que, nada sabendo nem querendo saber, dispara as mais absurdas análises.


A ideia europeia de fronteira era, em absoluto, estimada irrelevante pelas potências da região até à consagração do Estado Moderno, importado da Europa. O espaço político e o território eram considerados elementos acessórios da soberania real, posto que o território, como hoje se entende, não existia. Nas cartas pré-europeias da região, os “três mundos”, os lugares santos e de peregrinação, os centros energéticos e mágicos e até regiões míticas eram assinalados com escrupuloso detalhe. A luta pelo poder regional desenvolvia-se em torno de adereços simbólicos (elefantes brancos, lingas, templos-montanha) e pela presúria demográfica. Populações eram objecto da luta pela hegemonia, escravizadas ou submetidas à servidão, transferidas de região para região e integradas no sistema de trabalhos forçados que as corveias reais impunham.


Para a cosmologia budista presente no Agganna Suttanta, a génese do poder real corresponde ao declínio da radiância espiritual, que se terá embotado com a materialização e diferenciação da natureza e do homem, com a formação da propriedade privada, da conflitualidade, da cobiça e da injustiça. Para pôr fim à turbulência, aos desmandos e ao poder do ferro, os homens terão abdicado da liberdade egoísta e estabelecido pacto que permitiu a eleição de um rei. Este repôs a ordem e criou a sociedade estratificada segundo a pureza de cada um, promovendo a elevação dos homens na obediência ao Dharma (ensinamentos de Buda). Este movimento ascendente promoveria a salvação e a libertação do ciclo da reencarnação, ou seja, garantiria o nirvana. O poder real fundado nos ensinamentos do Mestre – Rajadharma – antecederia a plenitude da vivência de Buda, ou Dharmaraja. O cakravartin – ou poder honrado – seria munús do bom rei e garantia da harmonia e do império da justiça.


O Estado, na acepção ocidental, não existe na região até meados do século XIX. Não é entidade abstracta, mas conjunto de instrumentos permitindo estender a presença do rei, suprir as suas necessidades em homens e aprovisionamento logístico, realizar obras públicas hidráulicas que favoreçam o escoamento de riqueza para a capital. O bem-comum e a finalidade para o Estado não existe, se bem que os tratadistas budistas tentassem oferecer a ideia de um poder interessado pela sorte dos injustiçados, dos fracos e desprotegidos.


A periodização histórica dos estados do sudeste-asiático põe de relevo a importância das sedes do poder. No que à actual Tailândia respeita, a historiografia thai refere um “Período Sukhothai”, um “Período Ayuthaia” e o “Período Rattanakosin”, fazendo crer que a sucessão de capitais corresponderia à errância da mesma entidade estatal. Contudo, importa lembrar que Sukhothai e Ayuthaia foram inimigas e que outras capitais de reinos thai coincidiram no tempo, digladiando-se e escolhendo alianças entre os inimigos das suas rivais. Em finais do século XVIII, por exemplo, existiam cinco reinos thai e nos umbrais do século XX, Lan Na, no norte da actual Tailândia, mantinha rei, corte e exército próprios. A capital do Sião moderno, Krungteph (Banguecoque), é descendente de Ayuthia e nova sede do poder siamês, mas não é a sucessora de Ayuthia, porquanto, lembramos, o rei de Ayuthia fora capturado e dissolvera-se, assim, o corpo político que justificava, aos olhos da teoria do poder régio budista, a utilidade do Estado.


Para a tradição regional, o poder do soberano [ou o seu Mandala] estendia-se em círculos concêntricos da capital à periferia. Os reis consideravam-se "Monarcas Universais", pois não eram simples governantes, mas eixo da relação cósmica entre o mundo material e o mundo sobrenatural. A integração dos vizinhos fazia-se por conquista ou por imposição da vassalagem. Cabia ao Grande Rei (Monarca Universal) estender a ordem sobre o caos circunvizinho, pelo que os pólos de poder na região foram-se alterando ao sabor da ascensão e liquidação de grandes monarcas: Angkhor, Sukhothai, Ayuthia, Banguecoque.


O Camboja de hoje é um absurdo, pois, tal como o Laos, não devia, pura e simplesmente, existir, mas integrar o corpo do Mandala tailandês. Os reis do Camboja, tal como os príncipes do Laos, eram tributários do Rei do Sião, recebiam educação na corte siamesa, eram coroados em Banguecoque e exerciam as suas funções asssessorados por administradores nomeados pelo Rei do Sião. Porém, quando a França se quis apossar desses imensos territórios, tratou de aplicar o princípio das nacionalidades recortada do nacionalismo europeu do século XIX. Inventou, assim, um Camboja "subjugado" e um Laos "colonizado", pretendendo que estes possuíam uma "tradição de independência" e requeriam "ajuda" francesa" para se libertarem do jugo siamês.


Para separarem o Camboja e o Laos do Sião, lançaram mão de duas instituições culturais: a École Française d'Extrême-Orient - com o claro intuito de por a descoberto as marcas do "Antigo Camboja" - e o Institut Boudiste de Phnom Penh, destinado a separar o clero budista khmer, nacionalizando-o "cambojano", do Dhama siamês. (continua)

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