22 outubro 2008

Libertadores



Por esse mundo fora serão apenas quatro ou cinco os estadistas que ultrapassaram os umbrais da sua circunstância histórica e se transformaram em objecto de veneração pelos seus concidadãos. Refiro e sublinho cidadãos, pois concederam-lhes a plena dignidade de seres humanos, refizeram o pacto em que repousam as sociedades de homens livres e reforçaram a unidade de sentimentos que torna possível o sacrifício exigido pelo patriotismo. Alexandre III da Rússia, D. Pedro II do Brasil, Abraham Lincoln e Chulanlongkorn do Sião não terão sido propriamente homens privados de coragem. Invocando princípios - hoje chamar-lhes-ão "questões fracturantes" - correram tremendos riscos pessoais, declararam guerra à tradição e instituições que se confundiam com as sociedades em que viveram. Por isso, Alexandre III morreu estilhaçado por uma bomba, Lincoln morreu varado por uma bala e Pedro II perdeu o Trono do Amazonas. Desde as Antiguidades Ocidental e Oriental que se esgrimiam argumentos ontológicos sobre a desigualdede dos homens e se discutia sobre os males da servidão, da escravatura e da segregação pelo acidente do nascimento, com os conservadores de sempre reconhecendo-as como mal necessário e fatalidade, e abolicionistas radicais conclamando a uma libertação sem agenda, dois pólos extremos de hipocrisia ou cegueira. Para lhes aplicar a terapia fatal, foi necessário que homens de excepcional talante invocassem aqueles princípios transfinitos que estão antes e acima da tradição e do presente - por que fundamentos da ética, da moral e da justiça - e lhes dessem letra de lei.


Amanhã é feriado na Tailândia, dia de "São Chulalongkorn", do passamento do monarca que aboliu por decreto a escravatura e a servidão no seu reino. O retrato do Libertador está em todas as casas, em pagelinhas em todas as carteiras de documentos, em todos os templos, repartições de serviços públicos, escolas e viaturas. O mérito conferido pelo bem que aos outros se faz terá garantido a Rama V (Chulalongkorn) o corte no ciclo das reencarnações. Para os budistas, Chulalongkorn é mais que um rei: é um avatar de Buda que por este mundo andou para cortar as grilhetas da degradação e recomeçar a sociedade. Amanhã, vou acender uma velinha por S. Chulalongkorn, autocrata que destruiu os fundamentos da autocracia e lançou a semente do Estado para todos e de todos. Os retratos populares de Rama V exibem uma cabeça nimbada por halo de luz. Aqueles que maior veneração por ele exibem são, naturalmente, os thais de pele escura, descendentes dos antigos servos e escravos. Amanhã também serei "negro".


Gloria, gloria, aleluia (1863)

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