24 outubro 2008

Despolitização galopante


Pede-me um leitor que me pronuncie sobre os acidentes da vida política portuguesa. Não sendo este um blogue de política ou um blogue de missionação ideológica, nem tão pouco bandeira de qualquer grupo, partido ou associação - estou desligado, crescido e suficientemente experimentado para saber que essas coisas não levam a lado algum, pois reunindo-se três portugueses em torno de uma mesa, há três putativos presidentes, três receitas miraculosas para salvar o país, três difamações e três cisões à vista - vou-me reduzindo a distante e desinteressado expectador do que por Portugal se vai passando. Hoje li, por acaso, o noticiário dos jornais disponíveis em linha. Fiquei espantado, até zangado, com a minha absoluta indiferença face a todo aquele arrazoado: os fulanos e fulanas, as circunstâncias do culebrón e os desenvolvimentos da novela nada me dizem. Começo a não saber distinguir os nomes dos líderes políticos - dos de primeira, segunda ou terceira linha - dos ministros e dos ex-ministros, dos deputados, dos homens que encenam e dos que analisam, dou comigo a decifrar siglas de partidos e, até, tentar situar acontecimentos que galvanizam e sulcam o quotidiano, as emoções gritantes, os impropérios e as aclamações estridentes. Estou, então, em fase adiantada de despolitização. A apatia política não acontece por acaso; a despolitização é precedida pelo desencanto ou pela desilusão, pelo que, ao invés de acidental, decorre de um movimento profundo de rejeição que nos leva a esquecer. É uma auto-terapia e abandono de lastro para aspirar à indiferença, estádio fecundo em que a nossa consciência se coloca num novo plano. A fuga da Cidade não é apanágio dos universos sociais privados de vida pública. Não é só sob ditadura que se manifesta. Sob ditadura, o indivíduo sente-se agredido, incomodado e ultrajado pelo pequeno papel que lhe reservam na mole de estribilhos e bandeirinhas. A apatia, nas ditaduras, é ditada pelo medo e pela certeza que, um dia, tudo aquilo passará. Por isso, em regime de vigilância, os artistas ganham ânimo, erigem um universo paralelo e dão largas à criatividade. Os corpos sofrem com as grilhetas, o espírito não. Do que vos falo é coisa diferente: é consciência de que não há saída, que tudo se continuará a passar sem um fim, que aquilo que se passa fora de casa não nos diz respeito e, mesmo que dissesse, não poderíamos mudar coisa alguma. A despolitização, neste particular, é a morte da cidadania e quando a cidadania morre, as sociedades sucumbem.



Artie Shaw - Alone Together (1939)

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