21 outubro 2008

Coisas da citologia



É verdadeiramente triste pensarmos que a desdita portuguesa tem origem em Portugal.Pateta como sempre e já quase desabituado das facas e tesouras, não dei por ela durante meses. Fiei-me nas blandícias, nas afabilidades e simpatias. Fiz alusões breves a um projecto que me animava desde há meses e para o qual movi montanhas para demover reticências, conquistar pessoas para um objectivo que iria honrar Portugal nesta terra da Ásia e fazer "serviço público", quando a minha presença nestas paragens não é em nada compreendida por quem, pura e simplesmente, nada quer saber. A palavra de ordem é barrar, obstaculizar, minar terreno, não deixar fazer. Se não são os amigos, então, que não cresça erva. Quando o meu interlocutor estrangeiro, antes sempre prestável e claro, se pôs a fazer um circunlóquio interminável, levantando uma miríade de insignificâncias, dei comigo a rememorar situações análogas experimentadas em Portugal. Pois, o homem já tinha "sido trabalhado" e, sem saber que estava a colaborar num pequeno crime - tudo o que contraria o esforço português é crime - deixara-se envolver na velha arte da intrigazinha lusitana. Vi-lhe ansiedade estampada na cara e uma vontade genuína em desculpar-se. Não o deixei em sofrimento. Disse-lhe, apenas, "não se preocupe, meu caro amigo, estou habituado a estas coisas".

São os tentáculos incansáveis da mediocridade os que maiores danos - quase sempre irreparáveis - causam a Portugal. Não são tentáculos de um polvo: são mais como os oxiúros e outra fauna intestinal, incómoda, insignificante e quase invisível. E assim vamos, cantando e rindo, destruindo o pouco que ainda nos seria permitido fazer. Lisboa só é grande na arte da intriga, pois que no resto não pesa nem conta. Me ne frego ! Só me apetece largar o corso e dedicar-me à pirataria.


Le chant du pirate (Edith Piaf)

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