12 outubro 2008

A arte é sempre comprometida

A Grande Muralha de Plástico

A multidão dos "grandes de hoje". Quem terá ficado de fora ?
As Mães de Todas as Guerras: 1914 & 1939

O parietal de Phra non (Buda reclinado), como num templo

A Casa Bintang, clara materialização dos comics

Figuras que não escondem a referência archimboldiana

Flores de lótus em borracha dourada que respiram e insuflam

Um Buda monolítico feito em sabão verde

Um gigantesco Smile que nos fustiga com dois olhos holofote de cor vermelha e onda de calor

Na obra de arte está sempre presente o metatexto da cultura que antecede e limita o artista; estão as leituras ou a falta delas; as referências expressas ou os automatismos; os códigos e a semiótica civilizacional; os mitos que vinculam o autor e acentuam a personalidade no estilo e na repetição - a cultura é sempre uma prisão - como estão as linhas de reconhecimento e integração, atestando a actualidade do autor no quadro da cultura do seu tempo. Por isso, as artes plásticas requerem esses atestados de originalidade e autenticidade, enquadramento e rebeldia consciente, infracção e acomodação, sem as quais não há arte, mas tão só artesanato e jeito. A "arte moderna" - expressão vaga que tudo diz e nada diz - pretendeu-se emancipar dos dois veículos ideológicos normalizadores - a religião e o poder - que a haviam agrilhoado, limitado o repertório e fixado condições. Porém, constituindo-se em alternativa à religião e ao poder, quis-se como contra-poder, que é sempre um poder de fora (Deleuze) e escolheu o caminho da mera provocação. Uma provocação, diga-se em abono da verdade, muito integrada, muito respeitada, aplaudida e incentivada pelos circuitos comerciais do consumismo milionário. Não houve, no século XX, "ismo" algum que se mantivesse durante muito tempo imune à Sirene do Estado, que por ele não fosse comprado, convertido em propaganda e aplicado na exaltação do poder. A arte descomprometida não existe, como não existem literatura, cinema, arquitectura e tudo o que se aclama nas academias que não peça atestado político.


Hoje foi um dia de espanto. Visitei a grande exposição retrospectiva das artes plásticas tailandesas patente no Bangkok Art and Cultural Center. Percorri as galerias, grandiosas e despojadas de ornamentação e dei comigo a pensar nas diferenças manifestas entre aquilo que me era dado ver em Portugal e a realidade da criação artística thai. Confesso que lamentei o poseurismo, o "arrotar postas de pescada", o tique "intelectual", os "rodriguinhos" e o noblesse exige dos nossos artistas, sempre ufanos em mostrar a cópia mais recente recortada, ampliada, pirateada e ligeiramente alterada das revistas que se vendem por Berlim, Londres, Tóquio e Nova Iorque. Aqui, nada se esconde. Se copiar é uma virtude da humildade, pois que se copie sem entraves à perspicácia e olhar informado do visitante. A cópia nunca foi repudiada pela cultura clássica; é por isso que chamavam Obra Prima a um objecto que fosse tido como a excelência no seu género, que os artistas faziam uma vida inteira copiando para, no momento derradeiro, desferirem um golpe de génio e produzirem uma nova Obra Prima. No Ocidente de hoje, o artista tem de inovar a todo o custo e o resultado é desastroso. A neomania, contudo, está condenada, pois o artista não é um deus ex machina e, em geral, mudar e infringir por infringir, ou acaba em nada ou é o começo do sucesso económico de um autor que é assim por que é, sem que ninguém, após a catadupada de elogios, possa encontrar vestígios [e contaminação] do seu legado na vida daqueles que por eles foram interpelados.


É por isso que dou razão ao velho Eugenio d'Ors, que após anos de intenso comprometimento com as "vanguardas" acabou afirmando que a "obra de arte é sempre Tradição ou plágio". Muita da arte contemporânea que por aí reune o pleno dos plumitivos é, apenas, plágio. Para quando uma exposição de arte tailandesa contemporânea no CCB ?

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