08 setembro 2008

Quando voltas para Lisboa ?

Telefonam-me, enviam cartas e mails perguntando quando. Eu calo-me e vou tecendo suaves mentiras, distraindo e fintando o gume da faca que me apontam. É, fiquei farto do jazigo onde, vivo, vivi emparedado. Fiquei farto das carrancas cinzentas e da tristeza indizível, dos dias e das chuvas gélidas, do não poder ir a sítio algum por não haver sítio onde se possa ir, do lixo, dos graffiti, dos jardins sem flores, espezinhadas e arrancadas, das estátuas decepadas, das paredes e becos exalando metíficas descargas fisiológicas, do mendigo em cada esquina, daquela cor esmarecida que já foi cor, dos passadores de droga e dos músicos vagabundos drogados e alcoólicos, dos velhos abandonados e a morrer a olhos vistos, dos cães vadios sem direito a rendimento mínimo garantido, dos urros, guinchos e palavrões vicentinos do "bom povo" ventre-ao-sol. Tudo isso revi há meses, quando a saudade da família me obrigou retornar - como detesto a palavra, que soa a insulto - àquele aeroporto imundo que mais se parece com uma casa de banho pública, reflexo da desorganização funcional a que os meus pobres concidadãos se habituaram. Abri ISTO E REVI A PORTA TRASEIRA DO PEQUENO INFERNO. Estou aqui, sem o conforto da casa de Lisboa, sem os meus livros e sem empregados que me sirvam, mas estou bem. Aqui, com uma revolução no ar, barricadas, manifestações e algumas cargas policiais sinto-me absolutamente bem. Não quero ir. Venham cá ver-me.
Não sou derrotista e acredito que Portugal tem futuro, mas precisa de grande emenda para sair do torvelinho em que todos nós, portugueses - e não apenas os políticos - o meteram. O queixume é uma cobardia, e não esse caminho que nos tirará deste transe. Servirei qualquer governante, de esquerda ou de direita, que consiga a proeza. Portugal passou por análoga agonia no primeiro quartel do século XIX. Após a independência do Brasil, que pensávamos carne da nossa carne, ficámos, subitamente, sem nada. Depois, foram quase trinta anos de lutas civis, ódios e derrocada. Em 1851, o país acordou. É disso que estou à espera.


Confesso: Tony de Matos

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