14 setembro 2008

O dinheiro como mal



O Papa lembrou ontem, para escândalo de muitos, que o dinheiro é a raíz do mal. Nunca como hoje, tantos homens foram bafejados com a riqueza e bens materiais. As classes sociais, no Ocidente, praticamente desapareceram pela mágica da reprodução do dinheiro: o acesso à posse da propriedade, ao lazer, ao conhecimento, à informação são bens ao alcance de quase todos. Contudo, o Ocidente sente um tremendo vazio. Pela tardinha, antes de jantar com bons amigos que me prepararam uma deliciosa e portuguesíssima arrozada de marisco, passei por uma livraria e dei comigo a espantar-me a cada passo pela doença galopante e contagiosa de livralhada de marketing, vendas e sucesso, pequenas bíblias da nova crença no dinheiro, no fazer dinheiro e no impingir produtos aos outros: "Sê um Alexandre das vendas", "Conquista o mercado", "Estratégia de vendas", "Sê um Midas" e demais pérolas do reles culto de Mamona.


As civilizações dominadas pela espiritualidade relegaram sempre os ofícios do dinheiro e das mercadorias para grupos sociais subalternos. Na Índia, os brâmanes nem lhes tocavam, considerando-as impuras. Na Idade Média Europeia, os banqueiros, os prestamistas e agiotas eram considerados como infractores voluntários; logo, desdenhados e só tolerados se pertencessem a enclaves étnicos e religiosos. O dinheiro, o culto do dinheiro e a febre do dinheiro só transtorna espíritos inferiores; é um jogo, uma permanente fonte de maquinações, uma obsessão que acaba por escravizar. O capitalismo, encarado como sistema económico baseado na liberdade dos agentes económicos, no risco individual e na valorização dos homens, só é defensável se os empresários criarem, produzirem, inovarem e servirem necessidades.


Ora, aquilo a que temos assistido ao longo das últimas duas décadas é a negação do velho capitalismo. Onde antes havia produtores de bens, hoje parece só haver produtores de serviços. Onde antes havia proprietários, hoje só há accionistas. Onde antes havia homens enérgicos correndo riscos, hoje temos operações financeiras. Onde antes havia marcas, produtos e criação, hoje temos apenas conglomerados e fugazes associações de interesse aplicado a um objectivo temporal limitado. O jogo da especulação accionista, a abstracção e a matematização da riqueza, antes de servirem, estão a provocar o desinvestimento, o desemprego crónico ou a precaridade do emprego. Este novo capitalismo, com os males que vai espalhando, parece estar a fazer tudo para ressuscitar o proteccionismo, a autarcia e o socialismo. O Eldorado chinês, a que se somou ultimamente o País da Cocanha indiano, demonstra quão irresponsáveis são os técnicos de reprodução da riqueza. No fundo, o Ocidente vive da ilusão colonialista e imperialista que tal situação se poderá manter. Mas não, a China e a Índia, logo que alcançado o patamar de sociedades industrializadas modernas, reclamarão os benefícios das sociedades pós-industriais. Nesse momento, a Europa e os EUA nada terão. O dinheiro vai matar o Ocidente.

Sem comentários: