21 setembro 2008

Moçambique, com 40 anos de atraso

Moçambique integralmente coberto por ligação aérea em 1967


O aeroporto Gago Coutinho (Lourenço Marques)

Os jornais portugueses a que posso ter acesso noticiam a integral ligação rodoviária de Moçambique, mercê da criação de um eixo que cobrirá o território da ex-província ultramarina portuguesa. A exultação, contudo, se merece o aplauso de qualquer moçambicano, como é o meu caso, padece de originalidade. Em 1973, pela mão do então governador-geral Pimentel dos Santos, o projecto agora anunciado encontrava-se na iminência de conclusão, faltando apenas cumprir algumas obras de arte de engenharia para a transposição dos obstáculos naturais mais difíceis. Ou seja, aquilo a que as autoridades moçambicanas se agarram - deitados para o caixote do lixo os absurdos planos russo-búlgaros e alemães-orientais - decanta-se na mais pura doutrina de desenvolvimento integral do país a que os portugueses, há quarenta anos, se dedicavam. Então, o território detinha uma rede infra-estrutural portuária e aeroportuária sem paralelo na África sub-saariana, com excepção de Angola (também portuguesa) e da África do Sul. Era o tempo - mal se previa a entrega do "Estado português de Moçambique" aos mil guerrilheiros de Machel - em que a economia moçambicana crescia 16% ao ano, em que não havia fome, a rede escolar e sanitária cobria a quase totalidade do território, Moçambique detinha a menor taxa de mortalidade infantil da região, a electrificação das zonas rurais caminhava a passos de gigante, os hospitais provinciais rivalizavam com qualquer hospital de Lisboa e a agricultura de subsistência sofria a metamorfose deciciva que a levava para os umbrais da agro-indústria vocacionada para a exportação. Há que lembrar estas coisas, sobretudo porque, para as novas geração intoxicadas de mentiras, a imagem de um Moçambique colonial entregue a capatazes das companhias majestátivas continua a fazer escola.

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