25 setembro 2008

Madame Butterfly mora ao meu lado

Cruzei-me com a senhora e a criança vezes sem conta. Uma mulher bonita, arranjada mas triste, daquela palidez transparente que só as orientais conseguem sem os milagres das tecnologias da ilusão e do bisturi rejuvenescedor. Depois, olhando com mais atenção, reparei que o miúdo não era totalmente asiático: cabelos ligeiramente encaracolados, olhos redondos e grandes, nariz proeminente; um lúúk kreaung, como aqui são chamados os euro-asiáticos. Outra particularidade. A criança, a partir do terceiro encontro, passou a dar-me a mão, coisa que entre os asiáticos é, no mínimo, uma prova de tremenda ousadia. Depois, a revelação. A senhora fala francês, uma quase impossibilidade estatística após o afundamento global da presença gaulesa no sudeste-asiático. Há dois dias, no patamar, ela disse-me que me poderia dar o endereço da Alliance Française em Banguecoque. Haviamos falado sobre a França, mas nunca pensei que fosse visita dos serviços culturais daquela embaixada. Entrei no apartamento e impressionou-me a quantidade de objectos europeus: livros franceses, mobiliário e fotos, muitas fotos, espalhadas por toda a casa. A imagem de um homem de cabelo grisalho, evidentemente com idade para ser o pai dela, espalhava-se como uma obsessão por paredes, móveis e prateleiras. Perguntei-lhe quem era aquele senhor. Ela calou-se, mas depois confessou-me ser o pai da criança. "Ele viveu comigo durante cinco anos, disse-me que iríamos casar quando a criança nasceu. Depois, soube que já era casado, tinha mulher e filhos em França. Há sete anos, partiu sem dizer uma palavra. Sete anos".

Ocorreu-me o triste pressentimento que um dia o bandido apareça para lhe roubar a criança. Enquanto falávamos em francês, o garoto não me largou a mão. Confesso que dali saí combalido e sem vontade de voltar. Os europeus são assim: arrebatam, cansam-se e partem. Devia-se reinstituir a poligamia para evitar estas vergonhas.


Un bel dì vedremo, Madama Butterfly (R. Tebaldi)

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