05 setembro 2008

Insuportáveis lições de moral

Tive hoje discussão acalorada com um colega norte-americano, funcionário de uma ONG, que se queixava das privações que aqui experimentava com os míseros dois mil dólares que lha pagavam para "ajudar pessoas". Dois mil dólares, na Tailândia, é uma fortuna. Mas logo acrescentou que o fazia por razões humanitárias. O sonho deste apóstolo é o de converter a Tailândia numa sociedade livre e, até, numa república. Balelas. Os europeus, sempre que tal se proporciona, retiram da cartola os "valores civilizacionais" e tratam de comparar. Detesto comparações pois, se tudo neste mundo é desigual, relativo, contingente - fulano é carteirista e cicrano contrabandista; o contabandista é mais nocivo à sociedade, mas a fortuna que faz permite-lhe que no futuro venha a constituir uma empresa que dará emprego a muitos; logo, tornar-se-á útil à sociedade - por que razão nos agarramos à ilusão de um princípio universal que mais não passa de justificação ?


Aqui, longe da Europa, mas em permanente contacto com ocidentais - sobretudo americanos e australianos, que estimamos das populações mais broncas e limitadas na capacidade de apreender as subtilezas - ouço frequentes lições de moral a respeito dos asiáticos. Se Banguecoque não possuiu um Louvre, se os tailandeses não produzem vinhos que se degustem, se abominam o queijo e o consideram uma matéria rançosa e malcheirosa, se mantêm uma monarquia "como a Europa tinha antes da Revolução", se o "feudalismo, como era na Europa, aqui ainda impregna grande parte dos comportamentos", se acreditam em "espíritos, como no tempo do obscurantismo europeu", se não cumprem os "direitos do homem" como "nós também os não cumpríamos antes da Declaração", se são "preguiçosos e desorganizados" e têm de "evoluir para uma sociedade mais moderna" (...), logo, ainda se encontram num "estádio de desenvolvimento" anterior ao nosso, têm de se aprimorar, seguindo o nosso exemplo.


Eu sinto-me feliz nesta terra, precisamente por não ser europeia nem haver sido jamais uma colónia de qualquer "agente civilizador". Aliás, olhando para a vizinhança - Laos, Camboja e Birmânia - compreendo o orgulho dos tailandeses. Os vizinhos (Laos, Camboja e Birmânia), foram revolvidos em profundidade pelos agentes da "civilização", receberam tecnologia e conhecimento "superior", receberam os códigos, as leis, as constituições, os partidos, as ideologias e filosofias da Europa e o resultado é o que sabemos. Estes "selvagens" tailandeses", que mantêm uma monarquia "à antiga", que se regem por fórmulas "arcaicas" de relacionamento social, que colocam o budismo como princípio ordenador de toda a ética e da política, "merecem" que os conduzamos à luz, aqui espalhemos as alegrias do mercado, as delícias do "bem-estar", o "direito ao protesto", os sindicatos e as lutas reivindicativas, varrendo os miasmas da obediência, do "absolutismo" e dos arcaísmos para o caixote do lixo.


A Tailândia é adorável, precisamente por ser diferente. Em Singapura nada há para se ver, assim como na Malásia dos petrodólares, dos prédios de 70 andares, das paradas de Porches e Rolls Royce e dos magnatas das festarolas que se sentem promovidos por enviarem a criançada para os EUA, para a Austrália ou para a Europa para a aprendizagem da magia das contabilidades, do import-export, das joint-ventures e dos mercados de capitais, dos bull-spread's e quejanda sub-cultura da agiotagem.


No século XIX, muitos patetas europeus que aqui aportavam cheios de boas-novas, repreendiam severamente os "costumes bárbaros", o "servilismo" e a "imobilidade" do Sião, dedicando-se com especial ardor à erradicação da escravatura, da servidão e da poligamia aqui existentes. Contudo, como bem lembrou M. Pallegoix, que aqui foi bispo apostólico, os siameses "tratavam melhor os seus escravos que os europeus os seus empregados domésticos", pois aqui os escravos podiam ter propriedade, podiam constituir família, tinham direito de apelação, não podiam ser molestados fisicamente pelos seus amos", quando na Europa os domésticos eram tratados como gado, submetidos às mais vis afrontas, não possuiam quaisquer diretos sociais e até se lhes negava o direito ao voto.


A escassez demográfica produziu, até, um fenómeno inverso. Os amos tratavam bem os seus escravos e servos, pois estes, caso contrário, fugiam para as imensidões despovoadas do Reino, privando os senhores "feudais" de braços para as corveias e trabalhos exigidos pelo Rei. As crónicas e códices do velho Sião estão cheios de ordens para que os senhores tratem com respeito e bonomia os seus servos e escravos, que os governadores de província averiguem práticas contrárias aos ensinamentos de Buda, que as crianças e mulheres grávidas não sejam obrigados a trabalhos físicos, que se averigue que os doentes e velhos são protegidos.


Cá está a Europa a pregar moral. Diziam de nós, "retornados", que espezinhávamos o preto, que andávamos de chicote na mão, que tínhamos quatro mainatos a lavar-nos os pés, mais dúzia e meia a limpar o pó, mais jardineiro e tombazana para a pernada. Contudo, o meu pai, quando a Portugal foi pela primeira vez, salvo erro em 1944, assistiu a algo que em paragem alguma da "África esclavagista" se poderia ver: em pleno inverno, sob chuva intensa, no porto de Leixões, mulheres grávidas e subnutridas e descalças fazendo a descarga de carvão.
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Os ocidentais que aqui vivem, sobretudo americanos e australianos, pedem "reformas", pedem democratização, abertura e justiça social. São os mesmos que vivem aqui com a atitude colonial e falam da Tailândia como eventualmente falariam os senhores dos clubes para cavalheiros da Albion victoriana do "problema da escravatura" nos Estados Sulistas, pedindo, escrevendo e intrigando, mas esquecendo-se que menos de 100 metros do clube londrino haveria, certamente, um rancho de crianças ranhosas, subnutridas e descalças trabalhando 18 horas por dia para um dos seus ilustres consócios predicadores da moral da justificação.

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