28 setembro 2008

Impugnar falsas ideias

Anopong Chanthorn: estrela ascendente da pintura tailandesa

Zan Wang: A Cidade e sua Baía. Possivelmente, o maior artista mundial

Banguecoque: galeria de arte

Há tempos, um "intelectual" francês - a expressão soa-me a redundância - afirmava-me que os asiáticos não têm arte; ou antes, possuem um cânone tão tirânico que não conseguem criar nem "evoluir". A criatura, pelos vistos, continua agarrado à tara de categorização feita à imagem da História da Arte ocidental. Não quis discutir matéria tão complexa com o umbigo da criatura cerebral, mas ocorreram-me dois ou três artistas asiáticos contemporâneos, cuja obra impugna tais desconchavos ocidentais. A Europa, que já pouco cria, dá-se ao luxo de fechar os olhos e teimar num solipsismo cultural arrogante e suicida que a impede de conhecer, comparar e avaliar.
O "conservantismo" estético asiático enquadra-se na visão que o orientalismo quis infundir na comparação imobilidade/dinamismo que oporiam as civilizações asiáticas à civilização ocidental. Contudo, visitando um qualquer museu chinês, apercebemo-nos que a tal imobilidade de que nos falam os estudiosos europeus atinge, sobretudo, peças destinadas à exportação, quando pela Europa se divulgou o gosto pelas "coisas chinesas", em meados do século XVIII. Estes produtos, imprestáveis para os coleccionadores chineses, não seriam mais que artesanato destinado a compradadores privados do bom gosto e do conhecimento da verdadeira arte oriental. Outro elemento de "fixação" estética terá sido a tomada do poder na China por uma dinastia estrangeira (os Qing), de origem manchú. Querendo ser mais chineses que os chineses, os imperadores Qing - sobretudo Kangxi e Qianlong - impuseram pragmáticas do gosto, procurando decantar o "modelo chinês" e preterindo a criatividade. O mesmo aconteceu no Sião, onde, com a queda de Ayuthia e a transferência da capital para Banguecoque (1782), se quis recriar, copiando fielmente, todo o património arquitectónico destruído pela invasão birmanesa de 1767. Hoje, quando se visita o Wat Phó e o palácio real de Banguecoque, visita-se uma cópia de construções similares outrora existentes na antiga capital. Contudo, para lá da arte oficial - monumentos encomendados pelo poder - a criatividade e o experimentalismo, na China como no Sião, continuaram sem limitações. Seria o mesmo que confundir os edifícios de Estado no Ocidente - os parlamentos, os palácios do governo, os monumentos, todos talhados à imagem daqueles que Roma e Atenas outroram exibiram - com a arte dos artistas sem encomendas. Lembro que Corbusier, Frank Lloyd Wright, Edwin Lutyens e Ieoh Ming Pei fizeram arte monumental por encomenda - marcando-as com a "grandeza" inspirada no "cânone clássico" - como também riscaram trabalhos de encomenda para particulares, aí dando largas à mais expressiva independência.
A conclusão que disto podemos tirar é que nós, ocidentais, não toleramos a diferença e vivemos permanentemente viciados na falácia da universalidade. Se nós temos arte não figurativa e "eles" não, tal quer dizer que "eles" ainda não conseguiram libertar-se das formas; logo, estão "atrasados" em relação à Europa. Se isto funciona para as belas-artes e para a literatura - esquecendo que a novela e o romance existem na China desde o século XVI, que a Europa tardou em adoptar - o mesmo funciona para a política: se "eles" não são democráticos, estão num estádio anterior ao nosso. Esquecem-se os preclaros tiranos do pensar universal que a Tailândia, não sendo uma democracia à ocidental, é muito mais livre, flexível, aberta em tudo o que concerne ao indivíduo que as mais elaboradas democracias nórdicas.

Sem comentários: