12 setembro 2008

Americalogia




Os blogues, a comunicação social e as conversas de circunstância vão ter, inelutavelmente, ao tema das eleições norte-americanas. Dir-se-ia, até, que somos cidadãos desse império, com adesão primária a tudo o que cada facção em confronto vai descartando, no ódio, na pequena intriga e nas paixões de duração efémera que o jogo da grande informação debita hora-a-hora. Sabendo que as eleições americanas são importantes - pois afectam todo o mundo - o tema não me atrai, pois alguma leitura comparativa permite verificar que nada mudará após Bush. Os EUA são um império e não é pela mudança do imperador que o comportamento da grande e complexa máquina de poder sofrerá alterações dramáticas: está tudo tão implicado com tudo, tantos são os interesses firmados, as fidelidades pagas, os negócios e a trama de influências que o novo imperador, qualquer que venha a ser, não passa de pormenor. O império rege-se por uma inteligência diferente do pequeno Estado-nação. Pode, até, manter uma sucessão quase ininterrupta de "imperadores loucos", que tal não constitui óbice à expansão e consolidação da força externa do império e à riqueza e desafogo intra-fronteiras. Não há opção dilemática entre Obama e McCain: os dois representam - com as variações de humor, carácter e gabarito próprias dos homens - o interesse do império, pelo que a expectativa de messianismos e a chegada de um "tempo novo" ou a reivindicação da estabilidade e da continuidade são, apenas, ingredientes de sedução. Obama quer entrar e promete o céu; McCain quer manter e promete apurar a máquina. Depois da eleição, os EUA manterão tropas no Afeganistão e no Iraque, continuarão a carregar aos ombros as obrigações geopolíticas herdadas, os adversários e inimigos de hoje serão os adversários e inimigos de amanhã. Espanta-me que as pessoas, mesmo as medianamente inteligentes, não se dêem conta disso. Estão tão intoxicadas de esquematismo ideológico, tão fragilizadas pelo marketing - sobretudo tão desarmadas de conhecimento histórico - que julgam que os EUA escapam, como império, às leis que regem os impérios. No fundo, a histeria em torno das eleições americanas tem uma explicação, ou antes, duas:

- a vontade dos aliados, parceiros e bárbaros em saber o que acontece em Roma: se o imperador é casado com uma égua, se mandou envenenar o valido de véspera, se a Messalina de serviço arranjou novo amante entre a oficialagem pretoriana ou se o novo imperador vai ou não manter as festas no Coliseu;
- o desejo incontido de imitar Roma, de ser romano ou amigo dos romanos.
É matéria infantil. Só fica mal a quem por ela se esgota, pois exibe o pueril fascínio por coisas que não podemos evitar e nas quais não podemos intervir.


The Clarinet Polka (jimmy Dorsey)

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