23 setembro 2008

Faz 35 anos uma grande mentira


Faz amanhã 35 anos que a Guiné-Bissau, "sem Guiné e sem Bissau", proclamou unilateralmente a "independência". Corria o ano de 1973 e os "nacionalistas", em Angola e Moçambique, estavam confinados à irrelevância numérica e à absoluta insignificância estratégica e táctica. Haviam perdido a guerra. A URSS, a China e os ditos não-alinhados viravam-lhes as costas, depois de haverem tentado por três vezes aplicar um rumo esclarecedor à guerra de guerrilhas que aqueles moviam desde o início da década de 1960 contra o Exército Português. Em Moçambique, Samora Machel possuía mil guerrilheiros moçambicanos, numa Frelimo de 4000 efectivos recrutados na Zâmbia e Tanzânia. Em Angola, o MPLA já nem lutava, a FNLA confinava-se a uma ténue linha sobre a fronteira do Zaire e a UNITA tinha, contas feitas, cem guerrilheiros.



Na Guiné Portuguesa, o PAIGC vivia dias conturbados após a morte de Amílcar Cabral. Diz-se que Amílcar queria, a todo o custo, negociar com os portugueses, encontrar uma saída honrosa para o fracasso militar do seu partido, já a braços com severa limitação de efectivos, quase impossibilitado de manter bases logísticas no Senegal e transformado em aríete do governo do regime de Conacri. Tudo o indica, conhecendo os soviéticos, manipuladores e intriguistas excepcionais, que Amílcar conheceu a mesma sorte que, anos volvidos, eliminaria Samora Machel. Em suma, a cabeça do PAIGC já não acreditava na sua estrela e via-se transformado em refém do governo comunista de Conacri. Querendo libertar-se, só podia correr para os braços dos portugueses. Urdiu-se um complot, Amílcar foi eliminado e em seu lugar colocado um meio-irmão que se tornaria famoso pelas matanças que em 1975 tiveram lugar em Bissau contra os 13.000 soldados negros das forças especiais portuguesas. Ou seja, o Exército africano Português da Guiné era superior, numericamente, ao PAIGC.



Após o choque causado pela introdução pelos conselheiros soviéticos de armamento anti-aéreo de grande precisão, em finais de 1972 - causando o derrube de cinco aeronaves portuguesas - os mísseis Strella tinham perdido o efeito de surpresa, pois os pilotos portugueses haviam descoberto maneira de os fintar. Era a tecnologia soviética, mentira tão gabada, que não conseguia detectar os alvos logo que estes desligassem os reactores e procedessem a elementares manobras evasivas. O PAIGC limitava-se, agora, a incursões de ataque e fuga: entrar pela noite na Guiné, disparar morteiros e armas ligeiras contra aldeamentos defendidos e fugir de seguida. "Zonas libertadas" não as havia. Assim, tentando uma jogada publicitária junto dos retitentes subsidiadores, o PAIGC fez reunir na mais pobre e quase despovoada região da Guiné algumas centenas de guerrilheiros, mulheres e crianças, mais jornalistas e outros profissionais do artifício, proclamando a "independência" da Guiné-Bissau. A sessão durou menos de duas horas, não fosse a Força Aérea Portuguesa detectar o ajuntamento. Um discurso solene, uma salva de palmas, muitas fotografias de punho cerrado para a Reuters e fuga. Dias depois, na companhia de uma jornalista sueca, o então capitão Otelo Saraiva de Carvalho visitava a "capital provisória da Guiné-Bissau" e, no meio do nada, disse à nórdica curiosa: "como vê, conseguimos vir de carro de Bissau a Madina do Boé sem ver um guerrilheiro".


É assim que se fazem os mitos. Madina do Boé nunca existiu.

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