10 setembro 2008

Escolha o golpe de Estado que mais lhe agradar

Um dia sem aulas - tive um dia de férias, pois o terceiro nível de língua thai começa amanhã - e depois de umas horas de leitura em casa, tive tempo para espairecer na ginástica. Falei com meia dúzia de colegas de fitness sobre a actualidade política e, garanto-vos, fiquei perplexo. Todos, sem excepção, defendem um golpe militar, fartos da balbúdia que vai atrapalhando os negócios, as exportações, o turismo, os horários dos transportes, os vôos da Thai Airways; em suma, a imagem internacional da Tailândia. Já não suportam os políticos, as infindáveis discussões parlamentares, os golpes de teatro, as manifestações e greves, os enfrentamentos de rua, as cabeças partidas, as bandeirolas que se agitam, os ministros mentecaptos e a oposição bota-abaixo que o Nuno vai debitando. Só se ouvem duas palavras: autoridade e paz.

Em sociedades marcadas por uma forte tradição de "linha-de-comando" - usando a expressão cara a Adriano Moreira - os militares, detentores das armas e da disciplina, são fortes concorrentes dos civis [da burocracia] e da nova burguesia ascendente da banca e da finança. Como referia nos anos 70 Clark Neher (Politics in Southeast Asia), "os militares constituem o mais bem organizado grupo do país, e em termos de disciplina e hierarquia não têm rival". O ênfase dado à hierarquia, deferência e status, que se baseiam na relação superior-subordinado, predispõem a sociedade a aceitar com mais naturalidade a autoridade dos militares. Os militares são duros, mas essa dureza conforta, protege e é "apolítica", ou seja, apartidária, o que permite fazer tábua-rasa da conflitualidade ideológica ante golpe de Estado. "Apartando a inépcia, corrupção e mau desempenho dos civis (...), os líderes militares conseguem persuadir a burocracia que são a melhor solução para o governo do país" (idem, p. 185).

Julgo estarmos na iminência de uma tomada de decisão dos militares. Resta saber que modelo de golpe de Estado escolherão. Os últimos decénios facultam exemplos, bem ou mal sucedidos, de golpes de Estado de "acalmação", de "mudança do tipo de sociedade" ou de "suspensão" de um modelo contaminado pedindo reciclagem. Esta ratio castrensis pode envolver uma componente civil - tecnocrática, carismática e ideológica, como é o caso das lideranças religiosa e académica - e, até, das ordens sociais "antigas" (aristocracia) que permitem justificar o sentido de continuidade da legitimidade histórica face aos detentores da legalidade constitucional afastados do poder pela operação militar.

Perante as possibilidades de catálogo - "golpe à chilena", com assunção de uma via que leve o país para uma revolução vinda de cima, obrigando-o a mudar de perfil; "golpe à argentina", em que os militares se apossam do poder, mas contentam-se com o monopólio do Estado sem conseguirem mudar nenhum dos factores que concorreram para o mal-estar que levou ao golpe; e o "golpe à turca", que suspenderá as liberdades políticas, dissolverá os actuais partidos, interditará o acesso ao novo jogo político a todos os políticos do actual regime - julgo que, em face da plena adesão emocional à "democracia ocidental", os militares escolheriam a via turca, autoritária e desenvolvimentista. Os próximos capítulos contarão o fim desta história.


Prince Valiant

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