05 setembro 2008

Combustões no coração dos rebeldes: espiritualidades (II)

Uma das mulheres mais queridas pelos tailandeses


Monges pertencentes à seita rigorista Santi-Assok (Assok Pacífico)

Altares votivos, com incenso e flores, um pouco por todo o acampamento

Os tailandeses são muito exigentes em tudo o que se prende com obrigações religiosas. A vida, para eles, está impregnada de sinais, marcadores e referências que remetem para as crenças budistas. Dir-se-ia, não fossem aparentemente tão liberais e tão tolerantes, que estas criaturas vivem em permanente prova de robustez espiritual e que a sociedade deles exige análoga profissão de fé. Estar fora do Dharma - dos ensinamentos do Buda - é viver fora e contra a sociedade. Aqui, o nome próprio, o local e mobiliário da casa, a abertura de um negócio, a venda de uma propriedade, o dia do casamento, a cor que se veste e a comida que se come estão encerrados na predicação do Iluminado. Acreditram que o mérito se ganha e se perde, que a libertação maior é a fuga à danação da dor, da doença, do sofrimento e da velhice, pelo que tudo fazem para fugir ao Samsara, que os ocidentais desastradamente limitam à crença na reencarnação. O aperfeiçoamento não é, para eles, uma compra a prestações da libertação, pois esta não se pode realizar sem um movimento voluntário. Quem mentir a si mesmo, mesmo que se desdobre em actos de caridade pública, recebe um karma negativo. Para esta gente, o próprio Buda não é senão exemplo de um homem que encontrou o seu caminho; logo, Buda não deve ser entendido como Guia tre, mas, apenas, como aquele que soube virar a sua roda e deixar testemunho desse caminho.

Na Tailândia professa-se o budismo da Escola Theravada, a que mais fielmente se aproxima do Antigo Ensinamento. Subdivide-se em duas ordens dominantes, o Maha Nikaya, maioritaria, e o Dhammayuttika Nikaya, mais exigente. À margem, sem reconhecimento como ordem monástica, a seita Santi-Assok, de que é membro um dos líderes dos rebeldes, o general Chamlong. No acampamento dos tradicionalistas pontificam os membros da seita, envergando a túnica de cor púrpura, destoando do açafrão das vestes monacais das ordens oficiais. Aos membros da seita é exigido que vivam, dentro ou fora dos conventos, como monges, que ofereçam permanente testemunho das virtudes budistas, que não toquem em dinheiro nem se atenham a quaisquer prazeres mundanos. Encontrei-os macerados e brancos como a cal, mas sorriram-me e um deles até me quis oferecer um copo de leite de soja, que não pude recusar. No fundo, para eles não passava de um farang curioso que por ali passava em busca de espectáculo. Estavam absortos, de um silêncio duro, quase petrificados.
Andei por ali e dei comigo a ouvir uma senhora de voz quase inaudível cujo discurso era respondido com estrondosas salvas de palmas, gritos e outras manifestações de júbilo. Trata-se de uma conhecida escritora de espiritualidades, que se encontra no último estádio canceroso - já sem cabelo e muito magra - mas que diz lutar pela vida para dar o exemplo aos doentes oncológicos. Falou do amor ao Rei e contra o dinheiro, falou da esperança e do amor que tudo podem sobrelevar. Terminou, exausta, a entoar uma canção patriótica.

Sem comentários: