06 setembro 2008

Combustões no coração dos rebeldes: os ocupantes (IV)








No Palácio do Governo estarão em permanência quatro ou cinco mil pessoas, entrando ao longo do dia outras dez ou quinze mil para participar no comício ininterrupto que se realiza em torno de um grande palco onde oradores e músicos realizam um show que dura há mais de quatro meses. É uma façanha, sabendo que esta gente tem casa, empregos e obrigações. Uma senhora disse-me estar ali desde o primeiro dia da ocupação e que fala para casa a partir da central de comunicações onde estão reunidos jornalistas afectos ao movimento.
Pensei que ia encontrar aristocratas e gente especial - ou seja, das avenidas ricas da capital - mas vi tailandeses absolutamente normais, daqueles com quem nos cruzamos na rua, no supermercado e no pequeno restaurante de bairro. Há famílias inteiras, há grupos vindos das províncias, com os pais e avós, há muitas crianças - felizes por viverem agora nos jardins de um palácio - e até animais de estimação: gatos, cães, pássaros e ratos brancos. Ao passear pelas traseiras da sede do governo deparei-me com uma verdadira multidão dormindo nas garagens onde anteriormente estariam os carros de serviço ao governo. Não vi quaisquer sinais de vandalismo no jardim e edifício. Os ocupantes não entraram no Palácio e só têm permissão de utilizar as casas de banho do palácio se se descalçarem à entrada ! A funcionar, como sempre neste país, o sentido da hierarquia.
Outro elemento que me chamou à atenção: a coragem desta gente. Não temem olhar, sorrir e até gargalhar para a fotografia. Ninguém se recusou tirar a fotografia e recebi, sempre, o tratamento de "Sir", forma de distinção que os thais dão a alguns farangs, pois os outros farangs - de chinela, tatuagem e cabelos à futebolista - só recebem um crítico "Mister". Isto é um povo verdadeiramente requintado. Na Europa, a habitual escumalha já teria destruído, queimado e pinchado o Palácio do Governo.

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