04 setembro 2008

As figuras da "revolução siamesa": o homem com o coração dividido


Samak Sundaravej, o actual primeiro-ministro da Tailândia daria uma boa personagem literária, pois a complexidade que evidencia parece, de todo, artificial. É corpulento e alto, sanguíneo e sorridente, com irresistível queda para afirmações brutais e truculentas, que depressa se transfiguram em instantâneos de simpatia e quase comovente ingenuidade para um experimentado homem que vive da política desde os anos 60.


Recebeu formação no Colégio de Assunção, baluarte do ensino católico na Tailândia, parece ser medianamente instruído e dotado de um inato sentido da sedução. Apostou, sempre, nesta capacidade para falar com o povo comum, sentar-se à mesa e comer em público, entrar cozinha-adentro dos restaurantes para fazer de chefe. Aliás, a gastronomia parece ser a sua grande paixão, pois escreveu livros de culinária, teve um programa à Chefe Silva na TV e diz fazer política como um cozinheiro. Foi governador de Banguecoque e tornou-se notório que fala mais que trabalha. Os tailandeses - juntamente com os filipinos, são um povo dado às alegrias da vida - pelo que se deixaram seduzir pelo brutamontes simpático, esquecendo-se ou perdoando-lhe um passado estranho que se cruza com a brutal repressão que conduziu em 1976, e logo depois em 1992, contra opositores dos regimes militares que serviu com lealdade.


Políticamente seria, no quadro europeu, um homem da extrema-direita populista, com "discurso de taxista" e uma quase ausência de propostas. Fala, fala, pouco diz, matéria em que, aliás, não perde nem ganha quando confrontado com muitos dos nossos políticos profissionais. Hoje, a professora de tailandês dizia que "Khun Samak chóóp phuut ba-ba bo-bo, téé pen khon díí" (o Senhor Samak gosta de falar para nada, mas é um bom homem). Nos últimos anos, porém, cruzou-se com o homem mais amado e odiado da vida política tailandesa: Thaksin Shinawatra, hoje homiziado no Reino Unido por crimes cometidos no desempenho das funções de primeiro-ministro. Thaksin precisava de um homem que agarrasse a máquina do seu proscrito Thai Rak Thai - partido que fundou - e escolheu, tudo o indica, o nosso Samak. Samak criou um partido ex-nihilo, crismou-o de PPP e ganhou as últimas eleições gerais entre repetidas acusações de compra de votos. Hoje, debate-se pela sobrevivência. Ao longo dos sete meses de governo acumulou disparates, evasivas, frases anedóticas e, até, desastres tremendos, como aquele que permitiu a saída de Thaksin do país - fiando-se que aquele se dirigia a Pequim para assistir aos Jogos Olímpicos - facto que desencadeou a grande vaga a que estamos a assistir.


Samak é, tudo o indica, um homem que ama o Rei - aqui não se diz "gostar do Rei", mas "amar o Rei - e sempre se pautou por imaculada lealdade pela monarquia. Contudo, o dinheiro de Thaksin dividiu-lhe o coração. O amor ao Rei e a tentação de Mamona fizeram dele o líder indeciso e quase trágico que se vai arrastando penosamente. As suas qualidades estão-se a evidenciar neste momento crítico. Teimoso como um bulldozer, fica, faz finca-pé da legitimidade que lhe assiste e só saíra empurrado. É capaz, num último assomo de coragem - que ninguém contradiz - de trazer para a capital os milhões de camponeses que nele votaram e trucidar a eito os rebeldes. Não creio que tal seja possível, pois aqui o Exército é uma força temível, não está dividido e é de absoluta fidelidade ao Chefe de Estado. Como aqui disse, aqui não haverá 14 de Julho algum. Acrescento: aqui não haverá um Irão-2. Os próximos dias revelarão o destino de Samak.

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