15 setembro 2008

92 anos, um colar de marfim e um estojo em prata


Custa-me estar longe e não lhes poder dar pessoalmente os parabéns. A minha avó faz hoje 92 anos. Nasceu em 1916 e recebeu a graça de Irlanda, homenagem que o meu bisavô quis fazer aos patriotas irlandeses que nesse ano pegaram em armas contra a insuportável ocupação inglesa. Diz-me o meu pai que a Avó lhe levou alguns objectos, coisas dela porque acha que está na hora de partir e não vai chegar ao fim do ano. Não há que ficar preocupado, pois estas coisas não são como queremos ou pensamos, mas como a hora escolhe. Assim, começou a distribuição; fomos beneficiados com um lindo estojo de peças para escritório em prata que lhe foi oferecido pelos colegas da repartição há pelo menos 76 anos (!), creio eu, quando saiu do emprego para se casar com o meu avô, um mês depois de ter feito 17 anos! A minha Mãe também recebeu várias coisas, entre elas um belo colar de marfim que já deve ter mais de 100 anos. É este o espólio de uma colonialista. Por outras palavras, não faz o boneco da exploradora, uma mão empunhando a chibata da exploração das "mais valias" do negro, outra mão com um bacamarte para o abate dos elefantes. A minha Avó é um monumento vivo da África que acabou. Viveu todo o século XIX e já quase uma década do século XXI. Nunca lhe ouvi um insulto a quem a privou da sua vida, dos seus afectos e da sua dignidade de portuguesa africana.
Os meus pais celebram hoje 50 anos de casados, coisa quase impensável nos dias que vão correndo. Quando as experiências vida atingem tais dimensões e se cruzam com tantos acontecimentos que a história impõe, há que concordar, finalmente, que tudo tem um sentido. A vida não é fatalidade; fatalidade seria viver de cócoras perante terceiros. O meu pai, olhando para o passado - eu sei, porque ouvi e vi, semanas após o 25 de 74 - até poderia ter sido ministro da cultura do Moçambique independente. Recebeu, por alturas de Maio de 74, uma verdadeira delegação da FRELIMO - ainda proibida - que o vinha sondar para a "colaboração" com a situação que se desenhava. Recusou. Fez as malas, comprou cinco bilhetes de ida sem volta, e "regressou" a uma terra a que chamávamos Metrópole. Assim se fechou um capítulo das nossas vidas. Viver é uma aventura. Viva-se.

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