23 agosto 2008

Remorso (para a Maggie)


Eu sabia que não devia ter pactuado com tal monstruosidade, mas fi-lo. Comi a barbatana do tubarão e arrependo-me. Aliás, soube-me mal, como quem vai à pedicure e pede que lhe guardem as raspas de pele num saco plástico para depois as converter em sopa caseira. Sabe a isso. Aquilo são cartilagens, não tem sabor nem valor nutricional algum. É tão detestável como comer a lampreia, que é indigesta e até pode matar, tão absurdo como comer os passarinhos fritos, as patas de rã, as caracoletas em desaparição acelerada, o bacalhau que dentro de 30 anos já não existirá. Estamos, ainda, muito marcados pela ideia [bíblica] da inexauribilidade da vida "à nossa disposição", vida para cevar e destruir. Parece que se nos fecha o coração e fica de fora a ideia de crime e assassínio quando se trata de "vida animal". Já fiz, a seu tempo, o corte radical com soezes divertimentos - ditos "culturais" - com animais: odeio o vergonhoso espectáculo das touradas, odeio caças, caçadores e quejandas loucuras cinegéticas, mais o conforto compensatório que proporciona aos bípedes implumes, refastelados numa tocaia, garrafa de vinho na mão esquerda e bacamarte na direita, alvejando corajosamente - a 100, 200, 300 metros - tudo o que corra, rasteje e voe. A Maggie zangou-se comigo, e com razão. Não mais comerei aquela porcaria.

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