03 agosto 2008

Raça


O racismo distribui-se generosamente e em partes iguais pela espécie humana. Passou o tempo em que tal palavrão só se aplicava aos europeus, as White Shadows a que o belíssimo filme de Van Dyke and Robert Flaherty aludia. O limite semântico para o racismo anti-branco, que se envergonhava do seu nome, esgotava-se lexicalmente no evasivo território dos medos e das fobias: ora era "xenofobia", "eurofobia", "preconceito pejorativo", ora explicava-se como reflexo da agressão colonialista. É deveras incómodo tocar no assunto, até com os mais avisados e serenos académicos asiáticos - sejam indianos ou chineses, japoneses, malaios, coreanos ou thai's - pois tais palavrões existiam muito antes da "agressão" e faziam parte do vocabulário corrente dos povos asiáticos antes que o tal colonialismo e as tais agressões verdadeiramente ocorressem. Os japoneses referiam-se aos brancos em geral como gaijin ou nanban jin ("homens bárbaros do Sul"), tomado de empréstimo aos chineses, que ainda nos cumulam com o consabido sei gweilo (que quer dizer "fantasma morto), expressão moderada de "demónios de cabelos vermelhos. De aquisição recente, o anexim mais divulgado é, simplesmente, o de "white trash".

Razão terão muitos asiáticos em proclamar tal medo e aversão. Na Tailândia ouço com frequência o espantoso "Khon Thai Krua Farang", que quer dizer "os thai's têm medo dos brancos". Muitos ocidentais aqui desembarcados exibem comportamento estimado vergonhoso. Qualquer homenzinho ou mulherzinha vindos dos subúrbios da mais devastada conurbação londrina (ou nova-iorquina), chegados à Ásia, enchem-se de arrogância, que somada ao dinheiro e completo analfabetismo e desrespeito pelas cultura local, geram ressentimento e estupefacção. A linguagem gestual, brutal e ofensiva - o por os pés em cima de tudo, tocar fisicamente as pessoas, sobretudo a mania de acariciar a cabeça das crianças, o pular sobre obstáculos, - o falar alto, o trajo quase selvícola (tronco nu, calções esfarrapados), os beijos públicos e outras manifestações de intimidade, as borracheiras monumentais, o desrespeito pelas autoridades fardadas (a maior e mais perigosa das afrontas) concorrem para a tal "xenofobia" anti-branca. Á Ásia chegou sempre o que de pior e melhor o Ocidente tinha para oferecer. Aqui nunca houve um meio termo. O branco, ou chegava como funcionário do Estado (soldado, administrador, governador), como funcionário de Deus ou como lançado, criminoso homiziado, degredado, pirata, "soldado prático" fura-vidas e mercenário. Se os colonizados e "agredidos" se sentiam atraídos pelos primeiros, copiado-lhes os gestos e gostos - a elite dirigente asiática confraterniza em "clubes", pavoneia-se nos relvados do golfe, degusta vinhos e até se atreve polvilhar a conversa de anglicismos - vê no branco pé-descalço o estereótipo de tudo quanto abomina. Ainda há dias, lendo com atenção a categoria que me foi aposta no visto do passaporte, soube que era, para todos os efeitos, "alien person", como soube, em conversa com juristas, que jamais poderia aceder à nacionalidade thai, mesmo que aqui vivesse 100 anos, aqui constituísse família e aqui ocupasse cargos de relevo.

Porém, assumiria atitude "compreensiva" se tal descaminho da razão - o racismo, o preconceito racial, o complexo de superioridade - se aplicasse apenas aos alienígenas brancos. As sociedades asiáticas vivem muito apegadas à pureza de sangue e à etnicidade, mesmo que a cidadania - importada do Ocidente - camufle, distraia ou sirva para incutir unidade a um corpo social muito diverso nas línguas e dialectos, nas religiões praticadas, na estrutura familiar e hábitos culturais.

Na Ásia do Sul (India, Sri Lanka), como no Sudeste-Asiático (Tailândia, Camboja, Laos, Vietname), um indívíduo é tão mais respeitado quanto mais pálida for a sua tez. Pessoas de pele escura são tidas como inferiores, evitando-se o casamento entre "famílias brancas" e "famílias negras". Os casamentos hetero-sociais tendem a difundir-se, mas com a máxima reserva, pois tal mistura só ocorre quando o conjuge de pele escura possuir património e visibilidade capazes de apagar o estereótipo "homem/mulher escuro, servo ou escravo". Na Tailândia, os "brancos" - chineses, mistos sino-siameses ou siameses da planície aluvial do Chao Phraya - vivem em harmonia, pois monopolizam a propriedade e a riqueza, dominam o Estado e os negócios. De fora ficam os si dam (pele escura). Quando um thai quer obter informação básica sobre um terceiro, a pergunta sacramental que ocorre é: "é negro ou branco ?" Se o terceiro for khon Isan - isto é, natural do Issan, província povoada por khon Lao (pessoas de Laos), - tem todas as probabilidades de pertencer aos estratos mais pobres da sociedade. De fora ficam, num nível quase análogo aos sem casta na Índia, os povos das montanhas (Akha, Lahu, Karen, Hmong), com estatuto menoríssimo, sem cidadania plena, protegidos e vassalos com estatuto consagrado nas leis; o mesmo estatuto que no Japão reduz à insignificância os Ainu, os habitantes "negros" de Okinawa e os "coreanos". Não me venham falar, pois, em racismo branco. Há que estudar, ler e experimentar outros racismos !

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