12 agosto 2008

O verão é de Marte


Que me lembre, todos os factos marcantes da história da minha memória tiveram lugar no verão. O verão não são apenas as férias, o dolce fare niente, as longas evasões sob o sol da praia, quando o corpo se deixa envolver pela ilusão do tempo parado. O verão não são só as noites tépidas, os cheiros da natureza, o rotor da ventoínha a embalar o sono do corpo febril e causticado pelo calor que trouxemos da areia e do sal. No hemisfério norte, o verão quer dizer exércitos em movimento, cidades desanuviadas de nuvens, sirenes, populações em fuga, explosões surdas, ambulâncias, urgências hospitalares. É no verão que não há nevoeiro e a visibilidade é perfeita, a tecnologia funciona sem entraves, não há lama, as pistas estão enxutas e os homens não requerem outro alimento que a ração de combate e um cantil de água. A relação directa entre a história militar e o verão confirma o enganador espectáculo que a natureza parece ter querido prodigalizar aos infelizes povos que vivem enterrados em agasalhos oito meses, de mãos estendidas para o aquecedor e sonhando com o renascimento. Como em tudo na ordem cósmica, o equilíbrio determina que a ceifa de vidas e sofrimento atenue a explosão de sensualidade que é o verão. Dizem as estatísticas que é no verão que se nasce mais, como é no verão que a Parca mais vidas reclama. No verão não se pensa, não se cria, só se destrói e consome. Que eu saiba, também, no verão poucos filósofos pensam, poucos escritores alinham frases e até a necessidade de Deus parece ter pedido férias. O verão é, pois, de Marte.


Summertime (Ella & L. Armstrong)

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