21 agosto 2008

O que inebria e o que mete medo

Um hall em mármore rebrilhante, parietais em pedra cinzelada, clássico e eterno, despojado e elegante. A entrada para um belo restaurante, onde as iguarias rivalizam com o aprumo dos empregados e a cenografia que não esmaga, sossega, conforta e convida a estar.
Liu, restaurante em estilo neo-clássico chinês onde se servem pratos confeccionados segundo a tradição das gastronomias de Cantão, Xangai e Sichuan. Ali, eu, o Nuno e bons convivas tailandeses deliciámo-nos com os ágapes agridoces, o pato em folha de hóstia, os pastelinhos de camarão, a sopa de tubarão - vá, insultem-me - a massa de filigrana transparente, (...)
(...) logo seguidos de gelado frito em massa pintada a ovo, regados com chá de crisântemo e, pois, o café. Um almoço que faria inveja a Cixi, mas sem exageros, falso chique, como quem come apenas por prazer. É no Hotel Conrad, em Banguecoque, e merece uma visita. Não sei quanto custou o simpósio, pois o anfitrião nem nos deixou ver a conta.

Sigo para a biblioteca, onde fiquei até às sete e meia da tarde. Uma saltada ao Paragon, faraónico e ao serviço das bolsas endinheiradas da burguesia ascendente e sem gosto. O absoluto contraponto. O pirosismo sem limite e sem vergonha, o exibicionismo mais ordinário e impúdico, a total falta de referências, o quanto mais caro melhor, marcas da mudança dos tempos e da rotação das elites. Ali não há a conservação do belo traço do mobiliário siamês, as madeiras odoríferas e exóticas, a subtileza e o trabalho de artífices.

Campeia o estilo "Luís XXXV", mais o bricolage espampanante e roncante, de um mau gosto que reflecte o que vai nas cabeças de parvenus cheios de dinheiro, sem um livro e ávidos de status, que desprezam Sunthorn Phu, não querem saber de Kukrit Pramoj e julgam que o Ramakien é uma marca de perfumes. É desta gente que tenho pavor, os diluidores de tudo, que querem ser mais americanos que os americanos, que substituem a gravitas siamesa pelas afectações do golfe, pelo coleccionismo das "marcas" e mandam os filhos intoxicarem-se de MBA's para as américas. É desta gente que vai contar a história do futuro, a história do business, o fim do que resta do grande e velho Sião.
Chego a casa e está o Rei na televisão, fazendo um curto discurso para os responsáveis do Banco Nacional. Está de pé, pois um rei de pé quer dizer um rei no comando, mesmo com os seus 81 anos. Fala com serenidade, voz fraca mas imperiosa sobre a necessidade de poupar, de não esbanjar, de aplicar com parcimónia os recursos do país, de ajudar os mais pobres, de os não repelir na sociedade competitiva da globalização infrene. Olho para o seu escritório e ali não há "Luís XXXV", mas mobiliário discreto, de boa mão e de bom gosto. É o contraste que me fere mas apazigua. Ao menos, ainda há um senhor no comando. Nós, há muito que os não temos.

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