28 agosto 2008

Os "Tigres bebés": o país onde os Escuteiros são um quase-partido

Uma farda é sempre uma farda, sobretudo no Sião, onde só tem farda quem tem poder. Quem a não tem, não tem poder. Logo, o povo humilde exigiu fardas. Há fardas para todas as situações e condições. Até a junventude, no Ocidente tão rebelde e individualista, aqui se uniformiza desde a pré-primária à Universidade, e quando não tem de ir fardada para a escola vai fardada para os escuteiros. Os escuteiros -(ou "luuk sê-á" = "tigres bebés") estão em todo o lado e dominam grande parte das actividades extra-escolares dos rapazes e raparigas deste país, ensinando-lhes música e facultando-lhes cursos de artes plásticas, prática de desportos, viagens e acampamentos, montanhismo e mergulho, explicações e até cursos de formação profissional. São eles que animam as grandes campanhas de preservação da fauna e flora ameaçadas pelo imparável processo de industrialização de um país que entre 1960 e 2000 viu multiplicada por 25 a sua capacidade produtiva.

Houve até um tempo em que no Sião de Vajiravudh (ou Rama VI r. 1911-1925), o movimento escutista se constituiu em verdadeiro partido político oficial de apoio às políticas nacionalistas do Rei. Rama VI, homem de inquestionável valor intelectual, promotor do ensino superior, criador das principais instituições de salvaguarda patrimonial do Sião, fundador da Biblioteca Nacional e dos Arquivos, amante do teatro e da música, era considerado um homem excêntrico. Tivera uma juventude problemática, tão bem retratada pelos seus biógrafos Walther Vella e Stephen Green. Enviado para estudar na Europa, aí permaneceu por dez longos anos, lendo freneticamente os autores nacionalistas e convivendo com temas caros da cultura e ideologia imperial britânica. Ao voltar, trouxe as ideias europeias de "missão civilizacional e nacional" e de inculcação da fidelidade ao Estado. Opinam alguns que Rama VI conseguiu a estranha síntese de Baden Powell, Kipling e Mussolini, colocando o nacionalismo nascente sob a tutela real.

Contudo, ao suceder ao pai (Rama V), verificou que a resistência do aparelho às suas ideias reformistas era demasiado forte para um homem tímido que preferia os jogos de guerra no tabuleiro do seu gabinete ao confronto com a realidade de um país atrasado. Refugiou-se num grande parque - hoje Parque Lumpini, o pulmão verde da capital - aí imaginando uma sociedade perfeita. Nesta Utopia - com moeda própria, correios, tribunais, jornais e até comboio - os sócios moradores, membros da aristocracia e jovens criteriosamente seleccionados pelo mérito que lhes possibilitava bolsas régias - davam largas à imaginação, lendo e discutindo os principais tratadistas e filósofos da tradição ocidental, redigindo e representando peças de teatro, organizando tertúlias onde se discutiam livremente temas da literatura, das ciências naturais, da religião e da economia sem qualquer inibição, pois até o monarca exigia que o tratassem como simples con-sócio. Há quem ridicularize o Rei que a tal se prestou - a família praticamente com ele deixou de falar, vendo-se preterida nas escolhas ministeriais pelos favoritos do Rei - mas esse movimento foi responsável pela criação de uma classe governante fora da esfera da parentela real, abrindo as portas à constituição de uma sociedade civil embrionária que anos volvidos reclamaria responsabilidades de governação.

Neste movimento de responsabilização dos siameses, nesta rotação da soberania real para a soberania nacional, os escuteiros tiveram parte de leão. Dizia-se que lhes cabia coleccionar notícias, transformá-las em informação, ouvir e transmitir rumores e intrigas, impedir o surgimento de forças contrárias ao trono e, até, defender de armas na mão atentados à integridade do país. Nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, o movimento era tão forte que lhe estavam reservadas atribuições nos planos de emergência do Estado, destinando-se-lhes a guarda de pontes, estações de caminhos de ferro, rádios e jornais, hospitais e outros edifícios do governo. Com a Guerra Fria e a ameaça comunista, os escuteiros mantiveram a influência, atribuindo-se-lhes tarefas de acção psico-social nas regiões perturbadas pela guerrilha comunista. Hoje, no canal pirata de televisão dos contestatários, surgiram pela primeira vez os escuteiros. A multidão exultou, pois, aqui, os escuteiros são milhões.

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