07 agosto 2008

O minuto de glória a que têm direito

O encarniçamento contra a China na véspera dos Jogos de Pequim - atitude estúpida, irreflectida e desastrosa - poderá explicar-se pela conjugação acidental de uma forma de "pensar antiga" e preconceitos há muito inscritos na atitude ocidental face ao Império do Meio, aos quais se juntou um certo cruzadismo pela univeralização de um tipo preciso de modelo político e social que não vinga - nem vingará - na ecologia civilizacional daquela região.

A China não vai ser, jamais, uma "democracia ocidental". A vingar, essa democracia seria o fim do país, artificialmente mantido na crença da unidade nacional e de um patriotismo que é, para todos os efeitos, a grande ilusão com a qual o regime comunista se prepara para deitar para o caixote das antiqualhas tudo o que ainda o prendia à tradição política ocidental. O Estado chinês não é o Estado ocidental: é uma maquinaria menos complexa e menos subtil - logo mais dura e repressiva - que exige total subordinação, não aceita competição nem prevê qualquer margem de liberdade a uma "sociedade civil" que diminua ou ponha em causa a fortaleza do Estado. Se se dissipar o eixo que mantém o país sob controlo, se a hierarquia formal desabar, a China fragmentar-se-á em regionalismos, autonomismos, especificidades étnico-linguísticas (e religiosas), tal como aconteceu quando os Qing, em meados do século XIX, perderam o pé à situação.

Aqueles que acreditam no milagre de uma "revolução democrática" pacífica não sabem - por que nunca leram , porque são absolutamente iletrados na matéria - que os chineses, a pedirem outro regime, terão guerra civil, "senhores da guerra", limpezas étnicas, paralização económica, desinvestimento estrangeiro, colapso da ascendente classe média, luta entre o campo e a cidade, desestabilização de todo o equilíbrio regional, com possível exportação dessa instabilidade para os circunvizinhos Vietname, Laos, Camboja, Mongólia, Rússia, Nepal, Tajiquistão, Kazaquistão, Butão, Birmânia e Bangladesh. O colapso económico chinês afundaria a região no caos, transformando-a num verdadeiro perigo para a paz mundial, com ondas sísmimas que afectariam profundamente os EUA e a Europa.

O grande desastre chinês não foram nem o comunismo nem o nacionalismo, nem tão pouco a invasão japonesa. A queda do Império deixou um vazio jamais preenchido. A China andou, durante oitenta anos, à procura do prestígio e grandeza perdidas e encontrou-os recentemente no gosto pelo consumo, na exibição de prosperidade (que só distingue 10% da população) e na benevolente e interesseira atenção que os outrora arrogantes sinófobos manifestavam pelos "pequenos homens amarelos". Neste particular - compare-se - o Japão foi muito mais perigoso para o Ocidente, pois atacou-o frontalmente, destruiu-lhe os impérios coloniais, espalhou o ódio contra o branco e humilhou sem reparo o modelo europeu, abrindo portas às independências. A China nunca levou a guerra fora das suas fronteiras, com excepção das lutas fronteiriças que manteve nos anos 60 e 70 com a Índia, a URSS e o Vietname, nas quais foi, objectivamente, um aliado do Ocidente.

A China é menos perigosa que a Índia. A Índia tem uma tradição marítima e comercial importante, foi colónia e, no fundo, transporta o ressentimento de todos os ex-colonizados. Acresce que os indianos têm importantes colónias em África e no Sudeste-Asiático, colónias que vivem fora e em auto-exclusão. O chinês quer ser respeitado. O chinês contenta-se com isso. O Estado chinês não é aquela poderosa, precisa e metódica máquina que muitos julgam. O improviso, o não saber como fazer de outro modo, o desleixo crónico, mascarados com aprumo e teatro, mantêm a China de pé. Tudo isso pode entrar em colapso, caso os velhos preconceitos sinófobos persistam em exigir aos chineses aquilo para o qual não estão capacitados nem interessados.


Ode ao Rio Amarelo (Xian Xinghai)

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