22 agosto 2008

O judeu que criou o Islão


Há autores cuja leitura devíamos evitar e perante os quais reagimos como o interrogador de Galileu, muito certo da sua ciência aristotélica: "recuso-me olhar pelo telescópio, pois provoca-me dores de cabeça". Pela mão de um amigo francês chegou-me às mãos o primeiro tomo da controversa tese L'Islam, ses véritables origines: un prédicateur à la Mecque, da autoria do Padre Joseph Bertuel, discípulo de Hanna Zakarias, pseudónimo do frade dominicano Thery.

Após ciclópico trabalho de análise do Corão, empresa em que evidencia excepcionais dotes filológicos e um exaustivo conhecimento da Sagrada Escritura, da história bíblica e exegése, bem como das línguas e religiões do Médio Oriente, Bertuel despedaça uma a uma as teses coranológicas.

- A predicação de Maomé não lhe foi soprada pelo Arcanjo Gabriel (logo, o Islão não é uma religião revelada), pois tudo aquilo que revela já havia sido revelado há mil anos através do Antigo Testamento e da Torá. Deus não faz duas vezes a mesma revelação, logo o profeta não é profeta;

- A organização do Corão não segue qualquer ordem cronológica, pois o livro foi despedaçado e revolvido, sendo a versão actual resultado de concatenação acidental (o Corão apresenta-se como sucessão de surata, em ordem decrescente de extensão), e os "discursos e ensinamentos do Profeta" (o Hadith) não são merecedores de crédito, pois terão sido redigidos ao longo dos três séculos subsequentes à morte do predicador;

- Maomé não poderia ser o cameleiro analfabeto que a história conta, pois havia lido e conhecia todos os textos fundadores do judaísmo, limitando-se a dar-lhes forma aligeirada e popular, sem referir as fontes. Maomé seria, sim, um judeu-cristão ebionita em busca de prosélitos entre os árabes politeístas da Meca, onde vigorava um claro henoteísmo - crença religiosa que postula a existência de várias divindades, mas que atribui a criação de todas a uma divindade suprema, que seria objeto de culto - e que na Arábia dava pelo nome de Alat.

Depois, vem a suprema provocação, ou antes, a insinuação que paira e desnorteia. O reformismo cristão (o "protestantismo"), assentando na recuperação da pureza originária do cristianismo, quis reinvestir YHWH (Yavé/Iavé) na sua plena majestade, recusando qualquer representação de Deus, intermediação e intercessão humana na relação entre a palavra de Deus e os crentes e considerando Jesus um mestre predicador. Os despidos templos protestantes seriam, assim, como as sinagogas (e como as mesquitas), onde não há imagens e onde apenas se guarda a revelação divina. Por outras palavras, o Islamismo é uma derivação judaica e o protestantismo o retorno ao judaísmo; o Corão é um livro judaico, uma colectânea-síntese e tudo o que o distingue da sua matriz é acidente do movimento que lhe garantiu a força e estatuto que a história regista.
Tenho pelo Islão, como por qualquer outra religião, o maior respeito, pois ali se manifesta a inquestionável aventura espiritual que confere ao homem o predicado de "animal religioso" e a busca dolorosa dos fundamentos que afastam do vazio e do absurdo da trasitoriedade da vida. Contudo, o Islão é a única grande religião que impede, não possui e até proibe, qualquer interrogação histórica às suas fontes. O cristianismo teve os seus Pascal, Bayle e Voltaire, provocações que desencadearam o nascimento de uma apologética cristã moderna e profunda e, paralelamente, a plena autonomia das "ciências da religião". Mesmo aceitando o argumento pressuposicionalista que afirma o carácter autoritário, indiscutível e absoluto da palavra de Deus - no fundo, as religiões laboram sobre a fé e adornam-se da razão apenas para justificação daquela - assistimos, com trezentos anos de atraso e fora das fronteiras do Islão, a movimento análogo àquele que obrigou o cristianismo a terçar armas pela sua sobrevivência.


A jewish violin

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