31 agosto 2008

Faz hoje 34 anos: eu também sou de Darfour


Ao contrário dos darfurenses que só têm poeira para palmilhar e comer - e ao contrário da partida de Carlota Joaquina da baía de Guanabara, que sacudiu as bases dos sapatos na amurada do barco em que regressava a Lisboa - nem um grão da terra vermelha da alta da nossa cidade trazíamos como recordação dos sapatos. Saímos do Hotel da Baixa de Lourenço Marques para o Aeroporto. Assim fechámos uma porta das nossas vidas. Por mim - por mais que o evite e esconda - nunca me esqueci da partida e da chegada, quando apenas trazíamos um nada e nos bolsos nem cotão havia. No aeroporto de Lisboa não havia um Guterres palrador, nem uma enfermeira, nem um padre nem ninguém. Éramos o lixo do Império que a todo o custo queriam atirar para debaixo da carpete vermelha do novo Portugal. A seguir, foi o parque de campismo, onde vegetámos um ano sem outro agasalho para além da memória dos dias felizes da África Nossa.

É por isso, caros leitores, que tenho uma memória de elefante. Posso perdoar, mas não esqueço. Faz hoje 34 anos. Foi nesse dia que deixei para trás a infância, que deixei de acreditar na bondade do Estado e passei a abominar os politiqueiros, os de esquerda como os de direita. Assim ficámos décadas, escondendo, fingindo que tudo era normal, que a história decretara o nosso despejo. Hoje, com quase meio século, sei que a história se evita, que basta um pouco de dignidade e coragem para evitar os desastres. Não me venham falar em gestas e Pátria aqueles que por ela jamais sofreram um besliscão, nem em justiça social aqueles que nunca tiveram falta de pão. É tudo mentira ! Após 34 anos sossego quando verifico sermos, de longe, os melhores nesta terra. É por isso que nos querem longe da Assembleia, do poder e da comunicação social. Eles lá sabem porquê. O país gosta dos fulanos e fulanas rabudos, dos doutorecos e doutorecas, da meia tijela, com ou sem peles, dos bajuladores, dos pequenos e grandes poltrões. Está bem, assim, na fila de trás da Europa. Hoje dei comigo a relembrar. O pesadelo volta no próximo aniversário do grande despejo, sem Guterres, sem Cruz Vermelhas e sem padre no Aeroporto de Lisboa à espera dos naúfragos do Império.

Sem comentários: