15 agosto 2008

Esplendor morto

A Itália, agora já sem músicos, escritores e realizadores universais, parece carpir de saudade o tempo em que era adorada, imitada e requestada para dar à Europa o tal toque que falta aos afectados e pretenciosos franceses. A Itália, sim senhor, deu cartas durante décadas. Aos pés de Marinetti andou meia rive gauche dos provocadores, agarrada aos casacões de urso de D'Annunzio andou a fulanagem barulhenta, fumarenta e noctívaga dos bistrots de Paris, inebriados por Mussolini, que cometeu a proeza de transformar o machismo em doutrina política, andaram os rebeldes da juventude cheia de amanhãs cantantes, depois de se cansarem da clássica axiomática do velho Maurras. Depois, foi a veneração pela discreta e aristocrática sabedoria de Visconti, foi a excitação por essa inacreditável aventura de travestismo ideológico que foi o príncipe Berlinguer - só tolerado a um país que deu cabo do marxismo, reiventando-o e oferecendo de volta uma fascinante (in)versão pela mão de Gramsci - mais Pasolini, cujo Il Vangelo Secondo Matteo é o único filme "bíblico" autorizado pelo Vaticano. Depois, morreu.
Abro um álbum evocativo desses anos dourados que precederam a americanização, uma selecção da colecção cartazes do cinema italiano guardados no Museum of Modern Art de Nova Iorque e dá-me uma dor de alma. Como foi possível que o berço de tanta grandeza pudesse, no interim de 40 anos, descer tão baixo ? A Itália, mais que a Alemanha, mais que a França, parece ser o melhor exemplo da decadência e irreversível apagamento da Europa. Que pena.


Come Prima (Dalida)

Sem comentários: